Já ensinei vocês a se inspirarem na própria vida de vocês ou na de conhecidos, assim como os instruí a trabalharem com narrativas que admirem.

Agora uma coisa que poucos escritores estudam são os métodos de produção de outro escritor. E é o que quero passar hoje.

Quando digo "métodos de produção", não espero que bebam café e roam os grãos como Balzac assim como não acho que escrever em uma banheira com espumas tal qual Agatha Christie seja a solução que precisem. De fato, encontrar o meio certo para se animar (local, horário, a manuscrito ou no computador, ouvindo música ou em silêncio, etc.) faz parte do processo criativo. Por outro lado, também creio que seja preciso definir metas que você quer alcançar com ele.

O que você espera que esse livro faça: o público rir? Chorar? Pensar? Você quer escrever uma obra como um Neil Gaiman ou um Nick Farewell?

Escrever um livro é quase como abrir uma empresa. É preciso planejamento, definir metas e estar pronto para recalcular tudo, excluindo sonhos e colocando conquistas.

Vamos ao passo a passo:

1 - Como você quer escrever?
Você não pode escrever fantasia se não lê fantasia. Concorda?

Por outro lado, há de concordar que J. K. Rowling e J.R.R. Tolkien são escritores fantásticos que escrevem de formas totalmente diferentes. A autora prefere trabalhos dinâmicos com personagens mais vivos enquanto o criador da Terra Média é mais descritivo e cruza prosa com música.

Então é preciso que você planeje a sua escrita.

Quer algo simbolista? O que já leu que seja simbolista?

Quer escrever algo sarcástico? Você sabe a diferença do sarcasmo para a "zoeira"?

Cada gênero possui uma subdivisão onde você pode dar variantes de estilo como mais descrições, diálogos em discursos indiretos e cruzamentos com outros, como humor com fantasia ou erotismo com policial, por exemplo.

Na dúvida, pense em grandes indústrias de desenhos animados procurando conquistar sua identidade. A Disney foi pioneira. E o que diferencia o estúdio Hanna-Barbera deles?
Marvel com trilha sonora de rock e momentos bem humorados e
DC com trilhas grandiosas, ares sombrios e sérios: cada uma com sua identidade.

2 - Qual é o seu público alvo?
Você não é único. Com certeza deve fazer parte de um grupo social de pessoas que compartilham os mesmos gostos. E é inteligente o bastante para saber que existem outros grupos.

O capitalismo faz isso. Divide para conquistar. Tudo bem que há um público masculino que leia "Cinquenta Tons de Cinza", todavia isso não muda o fato que a obra da E.L. James tem como o foco o feminino adulto (ou "mommy porn", como também é taxado).

Na dúvida, pense em Monteiro Lobato com "Emília no País da Gramática", Malba Tahan com "O Homem que Calculava", Ivan Jaf com "O Vampiro Que Descobriu o Brasil" ou Jostein Gaarder com "O Mundo de Sofia". Todos eles escreveram livros para leigos nas disciplinas que instruem o leitor (língua portuguesa, matemática, história e filosofia, respectivamente) e não livros para especialistas na área.

É neste momento que você deve se perguntar coisas como: meu público é infantil e vai ler um livro sem ilustrações de 600 páginas? E fica sensato descrever um assassinato a facadas em um livro para o público adulto?

Antes de ser escritor, você é um leitor. E você não compra sonhos em uma livraria: adquire produtos. E não quer um produto de má-qualidade nem que seja sobre algo que você definitivamente não gosta.

Então se coloque no lugar do leitor: para qual tipo de leitor você está escrevendo?

Nota: tire o salto alto e não pense coisas como "eu escrevo para mim e depois para o leitor". Isso é coisa de quem escreve diários.

3 - Viva experiências
Se você é um rapaz que vive trancado no seu quarto e passa o dia todo lendo, escrevendo e jogando, obviamente terá muitas dificuldades em criar alguma narrativa sobre um atleta prestes a se aposentar, querendo encerrar a sua carreira com uma medalha de ouro olímpica ao mesmo tempo em que lida com um divórcio e um filho que não acredita em sua capacidade.

Um personagem é uma representação gráfica de uma pessoa. E qualquer pessoa tem formação, profissão, desejos, obstáculos e resultados em suas tentativas. Como quer dar vida a alguém se você não tem uma?

Escreva todos os dias. Fato. Se não escrever, procure trabalhar algo por dia. Leia algo sobre o assunto que está escrevendo, ouça opiniões e podcasts sobre literatura, além de ponderar sobre o que vai colocar ou não na trama.

Por outro lado, não deixe de estudar, trabalhar, conversar com amigos, passear, namorar, assistir a filmes e seriados ou jogar videogame.

Homem-Formiga: mais uma inovação da Marvel.
4 - Dê um passo a mais
A Marvel colocou um Homem de Ferro para apaziguar um conflito no Oriente Médio, um Capitão América em uma Segunda Guerra além de uma situação de espionagem (Soldado Invernal), um Thor em meio em um conflito edipiano entre Loki e Odin e uma equipe de Guardiões da Galáxia que poderia até colidir com algum universo de Star Wars ou Star Trek. E quando você pensa que eles não podiam fazer mais nada, eis que chega um Homem-Formiga para ser um filme de assalto, tal qual um “Onze Homens e Um Segredo”.

Isso é dar um passo a mais. Seu romance policial envolve um relacionamento entre uma detetive e um acusado? Ok. Seu viajante no espaço encontra Deus e quer convencê-lo a voltar a zelar pela humanidade também? Ok. Você quer escrever um conto sobre um menino que está no meio de uma trama de espionagem e, temendo não viver o dia de amanhã, transa com a babá? Calma aí!

Mesclar temas requer bom senso. E se você tem uma ideia para um livro e não tem o final, mas tem outra ideia que não sabe como começar e já ter noção de como acabá-la... por que não unir as duas, se forem compatíveis.

É isso, pessoal. Depois de todos esses artigos, espero tê-los ajudado a terem ideias para escreverem seus trabalhos.

Agradeço a leitura de todos. Em especial, da Anelise Vaz que acertou todos os escritores da brincadeira que fiz na última postagem.

Para quem estiver interessado em conhecer mais o meu trabalho, criei uma página no Facebook e uma conta no Twitter. Sigam-me os bons!

Obrigado a todos(as).

Sobre o Autor
Davi Paiva nasceu em São Paulo, Capital, em 1987. É graduado em Letras pela Universidade Cruzeiro do Sul. Participou de várias antologias da Andross, Terracota, CBJE, Navras, Literata, All Print, Aped e Darda Editora. Publica suas obras em diversos sites, entre eles o recantodasletras.com.br
Contato: davi_paiv@hotmail.com.

Um Comentário

  1. Olá Davi!
    Primeiro, me sinto honrada em ser citada na postagem. =D Bem que eu podia ter ganho algum tipo de doce. hahaha
    Brincadeiras a parte, amei a postagem, como sempre. Eu já devo ter tidos várias vezes que seu simplesmente adoro os seus artigos, mesmo sendo de coisas que já sei, porque eu sempre fiz meio que naturalmente.
    Eu só discordo um pouco do ponto que "Escrever para mim, antes do leitor" é só um modo de se incentivar. Porque eu escrevo como leitora e a primeira leitora que devo agradar sou eu mesma. E sim, já escrevi diários, mas larguei todos. Nasci pra diário não. =D
    Beijos!

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