Stieg Larsson sacudiu o mercado editorial com um soco no estômago chamado Millennium. Três livros fortes e vigorosos de denúncia dos vários tipos de mal tratos e humilhações às quais as mulheres vêm sendo submetidas nos últimos anos. Violências essas que a sociedade tenta ignorar com todos os subterfúgios da mais completa e refinada hipocrisia. Os livros de Larsson, que morreu de ataque cardíaco em 2004, venderam mais de 75 milhões de exemplares em 50 países, além de render quatro adaptações cinematográficas.

Stieg Larsson morreu antes de terminar sua obra, que se conjectura seria uma história contada em dez volumes, o que daria umas cinco mil páginas de mistério e aventura. Há teorias da conspiração sobre a natureza da morte prematura de Larsson, que era um ativista de esquerda, um homem de ideias e de ação, tendo inclusive viajado à Eritreia para lutar uma guerra socialista em solo estrangeiro.

O jornal Svenska Dagbladet informou, em fevereiro de 2004, que o escritor, autor de “Os Homens que não Amavam as Mulheres”, encaminhou à polícia 15 caixas com papéis que, segundo ele, ligavam o assassinato do primeiro-ministro da Suécia Olaf Palme, morto a tiros em 1986, a um ex-militar sueco que teria ligações com os serviços de segurança sul-africanos. Olaf Palme era um crítico severo do regime apartheid da África do Sul. A informação sobre o crime foi manchete nos órgãos de imprensa de toda a Suécia. Como no caso do assassinato de Kennedy nos Estados Unidos, a morte de Palme deu origem a uma enxurrada de teorias conspiratórias.

Larsson deixou escrito cerca de três quartos do quarto romance da série Millenium antes de sua morte repentina em novembro de 2004. Sua parceira, Eva Gabrielsson, tem em seu poder o notebook contendo o manuscrito, mas não detém os direitos sobre o trabalho de Larsson. Ela afirma que em uma tentativa de proteger Gabrielsson das pessoas que ele estava investigando na vida real (neonazistas suecos e racistas extremistas), Larsson nunca se casou. Ele deixou um testamento, mas como não houve testemunhas quando o lavrou, acabou invalidado pela lei sueca. Graças a isto sua família (o pai e o irmão) ganhou o direito a sucessão. Existem anotações para, pelo menos, mais um ou dois livros.

No entanto, Eva Gabrielsson não conseguiu entrar em um acordo com a família Larsson, e portanto essas anotações não serão usadas no próximo volume da série. O quarto livro da série Millennium foi anunciado em dezembro de 2013 pela editora sueca Norstedts, escrito por David Lagercrantz, um autor sueco que ficou conhecido por ser o biógrafo de Zlatan Ibrahimović, o famoso atacante do futebol sueco. A previsão de publicação do livro é para agosto de 2015, e Lagercrantz iniciará sua colaboração para o universo de Larsson do zero, ignorando o manuscrito em poder de Eva. O que ela deixou escapar sobre esse manuscrito que não será usado é que o quarto livro iria se chamar “A Vingança de Deus” e começaria com Lisbeth Salander no gelado Canadá, atormentada pelos fantasmas de seu passado.

Lagercrantz cresceu nos principais círculos jornalísticos e intelectuais da Suécia. Ele é o filho do editor sueco e especialista em literatura Olof Lagercrantz e sua esposa Martina Ruin, filha do filósofo Hans Ruin. Ele cresceu em Solna e Drottningholm, perto de Estocolmo, juntamente com seus irmãos, entre eles a atriz e diplomata Marika Lagercrantz (a qual interpreta Cecília Vanger na adaptação sueca de Os Homens que não Amavam as Mulheres). A família é descendente de uma linha de família nobre Lagercrantz e, como tal, membro da Câmara Sueca de nobreza. Através de sua avó paterna, e da linha sueca do clã Hamilton, ele também é um descendente da família do historiador do século dezenove e poeta Erik Gustaf Geijer.

Lagercrantz descreveu sua origem de alta classe como problemática e uma causa de antagonismo, em um ambiente literário e jornalístico dominado por escritores da esquerda radical no início de 1980 na Suécia, embora ele mesmo tenha determinadas posições políticas de esquerda. Como consequência, ele se retirou do debate intelectual e "esferas literárias de cultura" durante sua carreira jornalística. Lagercrantz é casado com a jornalista e gerente de notícias de rádio Anne Lagercrantz e tem três filhos. Ele é primo em primeiro grau do político e economista do Partido de Esquerda Johan Lönnroth.

A Sony realizou uma excelente adaptação cinematográfica para “Os Homens que não Amavam as Mulheres”. A versão sueca da adaptação é tão boa quanto. O problema da adaptação cinematográfica sueca são as adaptações para o segundo e terceiro livros da trilogia. Larsson pega pesado com a polícia, o governo e o serviço secreto suecos nestes livros, que seguem em uma nova direção, de mistério para thriller de espionagem. Nos filmes suecos isso praticamente desaparece, deixando furos na história e situações mal explicadas. Meu palpite para o atraso na filmagem da nova adaptação americana é que ela nunca vai ser realizada. A Sony está aguardando o lançamento do quarto livro para retomar a história desse ponto. O fato da história ter se transferido da Suécia para os Estados Unidos reforça isso, mas, como eu disse, é só um palpite. De qualquer maneira, a Sony já tem os direitos para os próximos livros da série.

Ficamos agora no aguardo do dia 27 de agosto, quando a Companhia das Letras irá lançar no Brasil “A Garota na Teia de Aranha”. A trama teve seus primeiros detalhes revelados pela editora inglesa MacLehose Press, segundo essas informações o romance começa com o “renomado cientista sueco Professor Balder” entrando em contato com Blomkvist e pedindo ao jornalista que publicasse a história dele, Balder. Segundo a editora, é uma história “assustadora”. As forças de segurança da Suécia ofereceram proteção ao professor, mas o que ele quer é preservar o trabalho de sua vida — avanços inéditos em inteligência artificial — ao torná-lo público.

Mais tarde se descobre que Balder já vinha trabalhando com Salander, que esteve sem contato com Blomkvist por um tempo após o final da trama relatada no terceiro livro da série. A hacker voltou a usar o codinome Wasp e vem tentando invadir os sistemas da NSA, "uma loucura motivada por vingança e com a disposição de ir até as últimas consequências", segundo relatou a MacLehose Press.

Fontes Consultadas:
Gabrielsson, Eva. "Biography Eva Gabrielsson". Steiglarsson.com. Visualizado em 09 de junho de 2011.
Mauricio R B Campos. Stieg Larsson - Antes de Millennium. 15 de fevereiro de 2015.

Sobre o Autor
Mauricio R B Campos nasceu em São Paulo, em 1977. Com formação em Administração, trabalha no mercado financeiro. É casado e está radicado em São Carlos (SP) desde 2008.
Publicou contos em diversas antologias, dos mais variados gêneros literários, tanto em formato tradicional quanto e-book, das editoras Komedi, Andross, Aped, Ixtlan, Illuminare, Multifoco, Navras Digital, Babelcube Inc., Darda e Buriti.
Como roteirista participará da antologia de HQ "O Rei de Amarelo em Quadrinhos".
Mantém um Website, uma conta no Twitter, Facebook e mais outras tantas redes sociais que não dá conta de verificar, atualizar, postar e compartilhar.

2 Comentários

  1. Olá Ricardo e Mauricio.
    Eu não conhecia sobre o autor e conhecia apenas a adaptação cinematográfica de Millenium, que inclusive nunca assisti.
    E realmente surgem teorias da conspiração quando alguém morre meio que "do nada".
    Gostei de saber um pouco mais dessa história e com certeza pararei para ver o filme da próxima vez.
    Beijos!

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    1. Ane, vale a pena ler o livro, é daqueles que quando você inicia não consegue mais parar.

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