Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently, Douglas Adams, tradução de Fabiano Morais, 1ª edição, São Paulo-SP: Arqueiro, 2015, 240 páginas.
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Richard MacDuff é um engenheiro de computação que sempre teve um comportamento exemplar, mas que se sentiu obrigado a escalar o apartamento de sua namorada e roubar a fita com a gravação de uma mensagem que deixou equivocadamente na secretária eletrônica. Perto dali, o detetive Dirk Gently observa tudo através de um binóculo e resolve entrar em contato com Richard, um antigo colega da faculdade, para oferecer seus serviços investigativos.

Esse primeiro contato entre os dois apenas antecede uma série de acontecimentos bizarros, que acaba levando o detetive a perceber que existe alguma ligação entre o comportamento incomum do colega e o assassinato de Gordon Way — chefe de Richard e irmão de sua namorada. Mas além de Richard se tornar o principal suspeito do crime, outras coisas bizarras acontecem com o passar do tempo, criando uma confusão sem lógica que pode salvar a humanidade da extinção.

“Esforçou-se para ouvir o que estava faltando e sentiu que a música era como um pássaro incapaz de voar, mas que não tinha noção da capacidade que perdera. Conseguia andar muito bem, mas andava quando devia alçar voo, mergulhar dos céus, subir às alturas, planar e descer a toda felicidade; andava quando devia vibrar com a alegria de voar. A música nem sequer olhava para cima” (pág. 144).
Se existe um gênero literário que teoricamente deveria ser fã esse é a ficção científica. Poderia listar uma série de coisas que comprovariam essa teoria, mas as pessoas que me conhecem, o mínimo que seja, já devem ter percebido algumas características de minha personalidade comuns em apreciadores do gênero. Porém, por muito tempo passei longe de qualquer história do tipo, seja na literatura ou até mesmo no cinema.

É bem verdade que sempre tive certo interesse em conhecer o trabalho de alguns gênios da ficção científica, como Jules Verne e o seu “Viagem ao Centro da Terra”, mas apenas Douglas Adams conseguiu criar não apenas a curiosidade como a necessidade de apreciar seus trabalhos. Afinal, o autor da série O Mochileiro das Galáxias, que dispensa apresentações, talvez seja um dos responsáveis por tornar a ficção científica tão popular no mundo literário — e a partir de hoje tenho certeza de que com muito mérito.

Além da série supracitada, que rendeu inclusive um dia em sua homenagem (Dia da Toalha), Douglas Adams também foi responsável pela criação de Dirk Gently, personagem que protagoniza outro grande sucesso: Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently. E logo após concluir a leitura me perguntei se seria possível o principal trabalho do autor ser ainda mais surpreendente do que este.

Confesso que não estar acostumado ao gênero fez com que me sentisse perdido em alguns momentos; em outros, simplesmente demorava a entender o que parecia ser simples e objetivo. Contudo, cada página virada reservava uma nova surpresa, envolvendo de um modo muito particular e me dando a certeza de que era sim possível inovar ao usar elementos de outro trabalho do próprio autor — que foi roteirista da série Doctor Who.

As surpresas só foram possíveis pelo excepcional enredo construído por Adams, embora ele ter se focado em diferentes personagens a cada novo capítulo não tenha sido o que mais me agradou. No entanto, deve ser levado em consideração que a escrita em terceira pessoa, e a própria troca de pontos de vistas, possibilitou um desenvolvimento muito mais complexo para a duologia. No fim, um gato desaparecido, um prodígio da informática, um poeta, um cronologista, a física quântica e um Monge Eletrônico têm muito em comum e o resultado da união desses elementos é simplesmente fantástico!

Muito disso obviamente se deve ao personagem que dá título à duologia. A necessidade de construir todo o universo da obra impede que Dirk Gently seja o verdadeiro foco, porém sempre que está em cena a personagem é impecável, especialmente por seu humor e seu estilo único de investigação. Ele tem todo um toque original em sua personalidade, o diferenciando de tantos detetives da literatura e ainda fazendo com que se torne inesquecível. Por isso bate certa tristeza pensar que ele só aparece em duas obras completas do autor.

Como ao falar de qualquer livro complexo, não é possível citar cada detalhe que faz parte dessa história lançada originalmente em 1987. O que dá para afirmar é que todo elemento científico é trabalhado de forma perfeita, sem que isso deixe a leitura maçante. Mais do que isso, a viagem no tempo que envolve a história tem um significado muito amplo e bem bolado, o que faz total diferença. Justamente por isso, e pelo que foi falado anteriormente, que pretendo reler assim que possível. E também conhecer mais de Douglas Adams, claro!

“Quando o disco deslizou pela terceira vez, houve uma repentina explosão de fúria: todo o telefone saltou para cima e foi atirado para o outro lado do escritório. O fio se enroscou em uma lâmpada de mesa no caminho e a derrubou em uma confusão de cabos, xícaras de café e disquetes. Uma pilha de livros entrou em erupção em cima da mesa e foi parar no chão” (pág. 166).

Um Comentário

  1. Olá Ricardo!
    Acho que todos conhecem Douglas Adams pelo Guia do Mochileiros das Galáxias, inclusive eu.
    Eu só conheci a história pelo filme mesmo, mas eu achei muito legal. E ele tem um toque muito divertido.
    E não conhecia este outro trabalho do autor. Mas pela sua resenha quem sabe não tenha oportunidade de ler futuramente.
    Beijos!

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