Olá, pessoal. Tudo bem?
Hoje vamos falar de uma técnica de escrita bem delicada e que gera controvérsia entre autores, mas que dá ótimos resultados quando bem empregada. Eu já havia dado umas pinceladas sobre o assunto em meu artigo sobre narração (link aqui), mas acho que agora podemos aprofundá-la mais.

Vamos falar de Ponto de Vista, ou PdV. Nota: há artigos em que ele é abreviado como PoV, que vem do inglês, “Point of View”. Mas eu vou chamá-lo de PdV.

Lembram dos jogos em terceira pessoa? Vocês enxergam aquilo que está à frente do personagem. Se virá-lo para a direita, enxergam o que está ao seu lado e deixa de ver o que estava a frente dele, certo?
Quem disse que o PdV é técnica exclusiva dos livros?
Isso é o PdV. É uma “câmera” que fica nas costas do personagem e nos diz o que ele vê e como vê as coisas. Pense em um homem do século VI trazido ao nosso mundo. Como acha que ele vai descrever os carros, a TV ou um computador?

Dois bons exemplos de PdV bem empregados foram nas sagas “Harry Potter” e “Percy Jackson”. Na série britânica, conhecemos o mundo bruxo pelos olhos de um leigo (Harry) e aprendemos com ele. Na americana, idem. Já imaginaram se os dois livros fossem, respectivamente, narrados pelo Rony (que já é bruxo) ou pela Annabeth (que já conhece os deuses gregos)?

Agora uma coisa especial dessa “câmera”: ela entra na cabeça do personagem e vai descrever o que ele pensa, sente ou acredita. Isso faz com que ele possa interpretar coisas erradas e seu erro faz com que ele seja igual a nós. Já falaram com uma pessoa e acharam que estava tudo bem quando na verdade não estava? Pois bem. Esse é o PdV dela e você viu tudo pelo seu.

Se entrássemos um segundo na cabeça dele,
saberíamos que ele era um cara legal...
Quando um escritor diz “fulana ficou confusa”, entramos na cabeça dela e sabemos o que ela está pensando/sentindo. Como uma pessoa reage ao ficar confusa? Quais são seus gestos, expressão facial ou tom de voz? Isso deve ser interpretado pelo personagem que está narrando o conto/livro e não o narrador em si. Há um limite para a onisciência.

Os leitores mais atentos devem estar se perguntando: PdV é escrever em primeira pessoa?

Nem sempre. Vejamos os casos:

1. PdV na primeira pessoa.
O autor tem que se colocar na pele da personagem e descrever tudo que ela faz, como pensa e como vê.

Vejam o exemplo:



“Ofereci o dinheiro para o guarda, mas ele empurrou a minha mão para o lado.
— Não precisa me pagar. Só fiz o meu trabalho — esclareceu”
O verbo “percebi” indica que a ação é executada por quem fala. E não podemos entrar na cabeça do guarda para saber o que ele pensa ou fica desarmônico.

Agora vejam a mesma situação com alterações:

“Ofereci o dinheiro para o guarda, mas ele achou que era pouco e não queria aceitar trocados de uma desempregada como eu. Empurrou a minha mão para o lado.
— Não precisa me pagar. Só fiz o meu trabalho — esclareceu”
Viram? Agora sim entramos na cabeça do guarda quando dizemos “mas ele achou que era pouco”.
Katniss: se não está presente e acordada, você não sabe o que aconteceu.
O PdV da primeira pessoa depende do seu nível intelectual, atenção e estado mental (não há como narrar incidentes quando se está dormindo, não é?). Rick Riordan contornou isso em “Percy Jackson e os Olimpianos” colocando o protagonista projetando a sua mente mesmo dormindo e em “Os Heróis do Olimpo”, cada personagem narra alguns capítulos.

2. PdV na terceira pessoa (foco em uma só), mas não onisciente.
Esse é o “câmera nas costas”. O que o personagem entende, ele descreve. Exemplo:

“O explorador viu aquela criatura na árvore e deu um passo para trás, procurando sua faca na cintura sem tirar os olhos dela. Não era grande e tinha uma expressão tranquila, similar a de uma pessoa. Mas aquele pelo sujo e garras enormes poderiam indicar que ela era um ser perigoso.
“Essa floresta amazônica só tem predadores!” pensou.”
Pobre explorador... Mal sabe que está com medo de um bicho-preguiça!

Brincadeiras a parte, reparem que o explorador viu a criatura e teve reação (recuar e procurar sua arma), além do narrador descrevê-la como ele a enxerga: uma criatura de pelo sujo e garras afiadas. O narrador não pode descrever que ela é uma criatura inofensiva... porque o explorador não sabe.

3. PdV em terceira pessoa (sem entrar na cabeça de ninguém)
O narrador é uma mosca voando pela sala e descreve o que vê e ouve, mas sem entrar na cabeça dos personagens. Exemplo:

“— Eu ofereço vinte reais pelo seu livro — disse o comprador.
— Essa obra é muito rara! Sabe quantas pessoas vendem esse livro por aqui? — rebateu o dono da loja.
— Pelo estado em que a deixou, creio que poucos. Vinte reais está de bom tamanho — retrucou o rapaz, tamborilando os dedos na mesa.”
Quem garante que o comprador está impaciente ou fingindo impaciência? Ninguém, pois o narrador não pode entrar em sua cabeça.

4. PdV em terceira pessoa com informações ilimitadas.
O narrador é um deus, que pode saber o que todos pensam e como vão reagir. Muitas vezes, isso estraga surpresas. Exemplo:

“— Marcinha, não sei se soube, mas a Daniela terminou comigo... — disse Daniel, procurando escolher as palavras para fazer o convite.
“Se ele quiser me convidar para sair, eu não vou aceitar”, pensou Marcinha.
— Sei disso sim. A escola inteira sabe. O que eu tenho a ver com isso? — rebateu a garota.
— Nada. É que... já que tenho os ingressos para o show, achei que quisesse ir comigo...
— Pode me esquecer — respondeu a garota, sem deixar Robson completar seu convite.”
Como podem ver, o leitor não tem surpresa. Ele já sabia que Marcinha não ia aceitar o convite.

Há autores que gostam de escrever assim: tudo em pratos limpos e sem surpreender o leitor. Em minha humilde opinião, isso tira do livro uma das coisas mais importantes que ele quer ao ler uma obra: a emoção.

Considerações finais
É possível criar uma narrativa em que eu narre em primeira pessoa, depois mude para terceira e reconto tudo do PdV do irmão da protagonista?

Eu não posso fugir um segundo sequer do PdV do meu personagem que está narrando?

E se eu tenho uma narrativa ocorrendo em várias partes do mundo, posso colocar um cidadão em cada lugar narrando os fatos?
Crônicas de Fogo e Gelo: acha mesmo que só há UM narrador ali?
Para a primeira pergunta, eu digo que não. Até o leitor mais leigo sente uma “bagunça” nos verbos: uma hora é “fiz” e na outra, “ele fez”. E ninguém aguenta ler 300 páginas de um livro narrando a luta de um homem contra o câncer, por exemplo, para depois ter que ler os mesmos fatos narrados do PdV do irmão por mais... 300 páginas.

Na segunda, eu digo que sim. Mas recomendo que faça poucas vezes. Se você está narrando do ponto de vista de alguém, ou quer que o leitor crie empatia com personagem-narrador (Harry Potter) ou com quem estiver ao seu redor (Dr. Watson, que narra o que Sherlock Holmes faz). Se ficar narrando do PdV dos outros, o leitor não vai passar muito tempo com o personagem que você quer que ele goste e o tiro sai pela culatra: vão torcer para que você o mate.

E na terceira pergunta, digo sim novamente. Um alemão viu a Segunda Guerra de uma forma... um russo, de outra... um judeu, de outra... um japonês, de outra... um americano, de outra... e um brasileiro, de outra. E se eles se encontrarem, como vai fazer o leitor ver porque cada um vai reagir de uma forma com o encontro sem a empatia que será necessária?

Para mais informações, leia os livros “Book-in-a-Box” do Nano Fregonese (capa rosa) e o da Camila Prietto (capa amarela), da DVS Editora.

É isso, pessoal. Espero que tenham gostado do artigo.

Abraços e continuem escrevendo!

Sobre o Autor
Davi Paiva nasceu em São Paulo, Capital, em 1987. É graduado em Letras pela Universidade Cruzeiro do Sul. Participou de várias antologias da Andross, Terracota, CBJE, Navras, Literata, All Print, Aped e Darda Editora. Publica suas obras em diversos sites, entre eles o recantodasletras.com.br
Contato: davi_paiv@hotmail.com.

2 Comentários

  1. Olá Davi!
    Seus artigos sempre sendo esclarecedores. =D
    Realmente tem muito autores que se perdem nessa coisa de PDV. Eu já li tanta coisa em que a pessoa colocava narração em primeira e terceira juntas que a leitura acabava ficando cansativa. Mas, bem ou mal, eu conseguia me entender na bagunça, porque eu sei ler as coisas mais improváveis. haha (Ainda lembro de corrigir a ortografia e ter a compreensão de textos de alunos durante o meu estágio, enquanto a professora só conseguia fazer um de cada vez.)
    Eu já narrei dos "dois tipos", em primeira e terceira. E a minha primeira experiência com um narrador-personagem foi com o Jimmy (sim, daquele livro do garoto virgem) e foi uma coisa muito divertida.
    E agora eu alterno de modo, dependendo da história. Agora tem uma em que eu uso dois PDV ao mesmo tempo. A mulher mostra o dela pelo diário, o homem complementa com seus comentários. No caso seria o marido lendo o diário da esposa. =D
    E acredite, teve gente que conseguiu se perder, mesmo com frases do tipo: "Abri o diário e comecei a ler; continuei a leitura".
    Só uma outra coisa: pelo o que me lembro o HP não chega a narrar a história não. Mas deixa eu me esconder aqui, porque eu nem terminei o primeiro livro. haha
    Beijos!

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  2. Estou muito contente por ler os artigos.
    Muitíssimos interessantes.

    Recomendadíssimos.
    Parabéns.

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