Entrevista com Daniel Barros, autor de “Sorriso da Cachorra”, “Enterro sem Defunto” e “Mar de Pedras”. Cedida a Mauricio R B Campos em 30 de agosto de 2015.

Se queres ser universal, escreve sobre tua aldeia. Tolstoi.

Gostaríamos de ter feito essa entrevista ao vivo, tomando um J.B. on the rocks, mas não foi possível, pois o alagoano Daniel Barros está radicado em Brasília, DF, e o Over Shock fica no estado de São Paulo.
Mauricio R B Campos — Daniel Barros, “Mar de Pedras”, seu último romance, se passa na Ilha de Croa, em Alagoas, qual a sua relação com esse pequeno paraíso alagoano?
Daniel Barros — Jorge Amado dizia que todos os seus personagens tinham um pouco dele ou das pessoas que ele conhecia. Para mim, escrever sobre os ambientes funciona da mesma forma. A Barra de Santo Antônio, onde fica a Ilha da Croa, eram aonde ia quando não estava trabalhando. Vivi bons momentos da minha vida naquela “ilha”, momentos não tão excitantes como viveu Henry Melo, mas bons momentos. Oportunidade em que convivi com pessoas que me inspiram a escrever “Mar de Pedras”. Entretanto, os acontecimentos políticos relatados no romance não se limitam às pequenas cidades, afinal no Brasil inteiro surgem “novos” políticos com velhos sobrenomes: Sarney’s, Cunhas Lima’s, Barbalhos, etc. Para você ter uma ideia, em Alagoas o governado é filho do presidente do Senado, o prefeito de Maceió é filho do ex-governador de Alagoas, Guilherme Palmeira e neto do ex-senador Rui Palmeira. Essa “genética” é discutida em “Mar de Pedras”.

Nos seus livros sempre há a presença de um fotógrafo, qual a sua relação com essa profissão? Já trabalhou com fotografia? Pensa em trabalhar com isso? Ou é uma escolha puramente literária?
Sempre fui um entusiasta da captura de imagens. Ainda muito cedo me apaixonei pelas fotos de David Hamilton, Sebastião Salgado, Evandro Teixeira, Bubby Costa e Henri-Cartier Bresson — este me inspirou o nome para o personagem Henry Melo. Assim que me formei, comprei minha primeira máquina fotográfica. A intenção era fotografar movimentos sociais, mas infelizmente não conseguia ser espectador, acabava virando manifestante. Depois pensei em fotografar mulheres, mas não teria relacionamento que durasse (risos), então parti para paisagens e publiquei algumas fotos nos jornais em Alagoas, entretanto nunca atuei profissionalmente. E seguindo o caminho contrário do fotógrafo Araquém Alcântara, que sonhava ser autor de livros, eu sonhei ser fotógrafo e virei escritor.

Você segue algum método para escrever? Mantém fichas de personagens, esboços, desenha previamente as cenas ou é mais intuitivo?
Normalmente começo pelo fim. Penso no desfecho e desenvolvo em cima daquela ideia. E, para minha surpresa, descobri que esta técnica de iniciar o livro, tendo já em mente o seu final, era um método ensinado nas oficinas literárias ministradas por Gabriel García Márquez. Quanto aos personagens, estes surgem naturalmente, mas, à medida que escrevo, eles vão tomando formas e crescem. Às vezes, um personagem que a princípio seria um coadjuvante cresce e se torna grande. Aconteceu em “Enterro sem Defunto”. Catarina era para ser apenas a namorada de Alcides, mas, de repente, cresceu ao ponto de ser, talvez, a personagem mais forte do livro. Em “Mar de Pedras” isso ocorre com Carolina. Não quero dizer com isso que eles tenham vontade própria, não! Quem manda é o autor, mas tem personagens que nos conquistam.

Seu livro “Mar de Pedras” teve um boom de vendas no Reino Unido, chegando a ser o livro mais vendido em língua portuguesa na Amazon UK. Conte para nós o que aconteceu?
Foi para mim uma agradável surpresa. Acredito que o clima tropical, a sensualidade, a vida boêmia e a cultura brasileira, ou seja, os temas abordados no romance possam despertar o interesse das pessoas que estão vivendo tão longe dessa realidade.

Por falar em Amazon, qual a sua opinião sobre a gigante dos livros eletrônicos?
Acredito que a Amazon veio para revolucionar o mercado livreiro, não apenas com os livros eletrônicos, mas também o livro convencional. Os grandes editores e best-sellers que criticaram muito a Amazon, hoje têm seus livros vendidos por ela. A forma honesta de prestação de contas, os direitos autorais pagos, nos livros eletrônicos que vão de 35% a 70%! Nos livros impressos 20%, quando no mercado convencional mal chega aos 10%. Tudo torna a Amazon um caminho promissor para novos escritores. Convém ressaltar que com “Enterro sem Defunto” cheguei a ocupar o segundo lugar de o livro mais vendido na categoria crime no Brasil, à frente “queridinhos” da mídia e de uma poderosa editora brasileira. Quando isto poderia acontecer no mercado convencional?

Você publicou seu primeiro romance, “O Sorriso da Cachorra”, pela Thesaurus, o segundo pela LER (“Enterro sem Defunto”), e com “Mar de Pedras” retornou à Thesaurus. Você em algum momento pensou em publicar de maneira independente, ou acredita que ainda é fundamental o suporte de uma editora?
O grande problema do lançamento independente é a distribuição. Quando por editoras, a distribuição é viabilizada. Tenho uma preocupação com os conceitos independente e alternativo. Alguns colegas se intitulam alternativos por não atingir o grande público e consequentemente o mercado, e como crítica aos que alcançaram se dizem alternativos. E me pergunto? Eu quero ser alternativo? Alternativo a quem? A Graciliano Ramos, a Jorge Amado, Alcione Araújo, Raimundo Carrero? Não, meu amigo, eu quero estar entre eles, entre os clássicos, entre os melhores.

Você já trabalhou, ou pensa em trabalhar em outras mídias, como cinema, TV, quadrinhos, teatro? Já imaginou suas obras em outros formatos? “Mar de Pedras” tem todos os elementos, por exemplo, para ser uma minissérie televisiva.
De fato, meus livros seriam facilmente adaptados para o cinema. Teatro, não tenho certeza, mas quadrinhos acho que só se fosse japonês – Hentai - (risos). Um amigo, cineasta pernambucano, vai analisar, mas nada concreto. Estou aberto para discutir uma possível proposta. Acredito que teríamos bons filmes, sobretudo, com “Mar de Pedras” e “Enterro sem Defunto”.

Com certeza. Em “Mar de Pedras” Jorge Amado encontra Hemingway, quais as suas influências literárias?
Realmente um encontro de gigantes! A virilidade e valentia dos heróis hemingwaynianos e a malandragem e a realidade dos anti-heróis de Jorge Amado. Em comum, as aventuras e a boêmia de ambos. Não há dúvida que são minhas maiores influências, mas não poderia deixar de citar Bernardo Guimarães e Marcel Proust, onde a riqueza de detalhes é marcante, riquezas essas que já me rederam algumas críticas negativas. Não poderia deixar de fora o mestre Rubens Fonseca, para mim o maior escritor brasileiro de literatura policial. Dele busco o cuidado técnico da informação colocada no enredo, sem furos por falta de conhecimento, o que é muito comum na literatura policial. Para você ter uma ideia, um premiado escritor e jornalista teve o disparate de escrever que seu personagem, ao ouvir um barulho na porta, “destravou sua pistola Glock e…” Ora! As pistolas desta conhecida fábrica austríaca não apresentam travas, apenas um mecanismo no gatilho, que ao ser acionado libera a arma para o disparo. Nesse mesmo livro ele cometeu outros equívocos, que poderiam ser facilmente eliminados, se ele tivesse a humildade de consultar que entendido no assunto. Aqui complemento a sua pergunta sobre o porquê da presença de fotógrafos nos meus livros, acredito que devemos escrever sobre o que conhecemos.

O fato de Rubens Fonseca ter sido policial o credencia para ser o mestre, como você sempre o chama, da literatura policial?
Poucas pessoas sabem que, o mineiro de Juiz de Fora, Rubens Fonseca foi policial civil no Rio de Janeiro. Fico feliz por sua lembrança. O fato de ser policial não o credencia para ser o mestre do gênero policial, mas o conhecimento adquirido no período em que foi policial fortalece sua genialidade. O dom para a escrita o faz um mestre, se não fosse na literatura policial, seria em outro gênero com certeza.

“Mar de Pedras” é uma obra que deixa espaço para continuações; podemos sonhar com uma série, ou a aldeia de pescadores do livro viverá apenas em nossa memória?
Realmente tenho essa demanda dos leitores. E isso me deixa muito contente, significa que o livro marcou as pessoas e o desejo de continuar convivendo com os personagens é algo positivo. Então penso que ainda seria uma boa estória os desdobramentos dos acontecimentos narrados no epílogo. Carolina, Francesca, Padre Francisco… enfim, como grandes personagens, talvez nos proporcionasse um belo enredo. Mas tenho outros projetos em mente.

O que podemos esperar de Daniel Barros? Seus livros têm ficado cada vez melhores; o que vem por aí?
Quando terminei “O Sorriso da Cachorra”, meu maior medo era não ter folego para escrever outro livro, e ser escritor de um livro só. Hoje o meu maior medo é não evoluir nas próximas obras. Neste sentido tenho tido boas críticas sobre a minha possível evolução, e, portanto, o trabalho se torna mais árduo. Estou escrevendo, no momento, um romance mais denso, mais introspectivo, com um cuidado maior na construção dos personagens e do enredo. Não quero ainda adiantar o título, pois não sei se vou conseguir atingir o meu objetivo, e caso não, não o publicarei. Quando comecei a escrever “Mar de Pedras”, meu objetivo era escrever um romance tropical, suave, agradável, com sabor e cheiro, não que as questões políticas lá presentes não despertem a um questionamento sobre nossa sociedade, capitalista, egoísta e corrupta, entretanto, não tiram a leveza e o colorido da trama. Após a conclusão desse trabalho, quero retornar ao gênero policial, para isto, estou ampliando minha biblioteca no gênero para, a partir do final deste ano, me dedicar mais ao tema. E espero que entre estes livros que me darão subsídios para escrever uma boa narrativa, esteja o seu livro, caro Maurício, que pelo que já conheço das suas linhas, será sem dúvida uma grande obra literária. Quanto à entrevista não ter sido ao vivo, e, portanto, na aprazível companhia de Justerini & Brooks, espero termos outra oportunidade, para nos conhecermos pessoalmente e podermos papear um pouco, o que será um grande prazer para mim.

Sobre o Entrevistador
Mauricio R B Campos nasceu em São Paulo, em 1977. Com formação em Administração, trabalha no mercado financeiro. É casado e está radicado em São Carlos (SP) desde 2008.
Publicou contos em diversas antologias, dos mais variados gêneros literários, tanto em formato tradicional quanto e-book, das editoras Komedi, Andross, Aped, Ixtlan, Illuminare, Multifoco, Navras Digital, Babelcube Inc., Darda e Buriti.
Como roteirista participará da antologia de HQ "O Rei de Amarelo em Quadrinhos".
Mantém um Website, uma conta no Twitter, Facebook e mais outras tantas redes sociais que não dá conta de verificar, atualizar, postar e compartilhar.

Um Comentário

  1. Olá Ricardo e Mauricio!
    Gostei muito da entrevista com o Daniel. Achei o livro mais recente dele se passar em um lugar pouco conhecido, o que dá uma característica única a obra.
    E muito mais sucesso ao autor!
    Beijos!

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