O Sol é para todos, Harper Lee, tradução de Beatriz Horta, 5ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
José Olympio, 2015, 350 páginas.
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Scout é uma criança sensível, filha do advogado Atticus Finch, responsável pela defesa de um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca em Maycomb. Desde que seu pai se dispôs a defender esse homem, Scout passou a encarar de perto o preconceito e a desconfiança de todos ao seu redor, percebendo com seu olhar infantil as diferenças entre as pessoas, as famílias e principalmente a injustiça entre brancos e negros.

Mas a rotina da garotinha, que não deveria ir além do convívio com seu irmão, Jem, e o melhor amigo deles, Dill, acabou se transformando conforme toda a população se voltou contra o negro. Embora Scout não perca a esperança, perder a inocência é praticamente inevitável.

“O argumento de que Atticus tinha sido obrigado a fazer a defesa teria evitado muitas discussões e confusões. Mas será que explicava a atitude dos moradores da cidade? O tribunal designou Atticus para fazer a defesa do negro, Atticus tinha a intenção de defendê-lo, era disso que eles não gostavam. Eu estava confusa” (pág. 204).
Considerado um dos cem melhores romances em língua inglesa desde 1900, o clássico O Sol é para todos é de importância vital para a literatura e a própria cultura norte-americana. Escrito por Harper Lee, a obra publicada originalmente em 1960 pode ser vista como um espelho da sociedade dos Estados Unidos, além de servir para o entendimento da própria história do país.

Tendo como cenário uma pequena cidade do Alabama, no início da década de 30, o livro é narrado por Scout, a garotinha que desconhece os perigos e injustiças do meio em que vive. Tê-la como narradora me deu a chance de me aprofundar no desconhecido, ou seja, ver com outros olhos o contexto histórico e as próprias pessoas que compõem a obra. Ver tudo com os olhos de uma criança!

As pessoas, por sinal, podem ser vistas como elemento principal, sendo que o comportamento de cada personagem e o relacionamento entre elas conduzem todo o enredo. Conforme suas qualidades e defeitos são revelados, fica claro que a intenção é mostrar como as próprias pessoas representam um grande problema para a sociedade, ainda que algumas delas possam ser a prova de que as aparências enganam. E as aparências representam muito para o todo de O Sol é para todos.

Mas até chegar ao grande X da questão e o livro revelar o motivo de toda a sua importância para o meio literário (tornando impossível largar o exemplar), a narradora-personagem apresenta tudo com muitos detalhes, o que tornou a leitura cansativa e entediante, embora não tenha uma escrita difícil. Pelo contrário, Lee tem uma escrita muito agradável, mas o exagero em informações, que particularmente considero desnecessárias, impediu que apreciasse essa leitura como imaginei em um primeiro momento.

Isso não significa, no entanto, que tenha ignorado a maestria de Harper Lee ao tratar um assunto que à época do lançamento era um tanto controverso — e desde já peço desculpas caso tenha escolhido o termo errado. Ora, entre o fim da década de 50 e o início da década seguinte, os ativistas políticos ainda caminhavam em busca de uma sociedade em que brancos e negros convivessem em harmonia, então um livro tratar o assunto de forma tão singela só poderia conquistar os corações dos leitores.

E como exemplo da luta pela igualdade basta citar os movimentos liderados por Martin Luther King, que proferiria seu famoso discurso apenas alguns anos após o lançamento da obra. Sendo assim, O Sol é para todos, escrito a partir de memórias da infância da própria autora, era a prova de que as injustiças e o preconceito persistiram durante décadas e que era necessário tomar uma atitude o quanto antes. Harper Lee pode não ter influenciado as conquistas que aos poucos mudariam — ainda que não por completo — a sociedade norte-americana, mas ela foi brilhante ao retratar a crueldade e o interior do homem de forma tão verossímil.

Ganhador do Prêmio Pulitzer de Literatura, O Sol é para todos representa um marco na cultura norte-americana e felizmente isso se espalhou pelo mundo, exatamente com a mensagem de que somos todos iguais e que o Sol é de todos nós. De forma marcante, preconceito e desigualdade são retratados como algo comum entre todos os iguais. O que não deixa de ser uma péssima verdade. E embora a leitura tenha se arrastado e mesmo achando que muitas coisas não contribuíram ao resultado final, não é um livro para ser esquecido.

Também por isso pretendo me entregar à leitura do recém-lançado “Vá, coloque um vigia”, publicado nos Estados Unidos mais de cinquenta anos após o lançamento do livro em questão e que se passa exatamente no início dos debates pelo fim da segregação racial.

“Engraçado, Atticus Finch podia ter conseguido a liberdade para ele, mas esperar? Nem pensar. Você sabe como eles são. Assim como vêm vão. Veja só, o tal Robinson era legalmente casado, dizem que era asseado, frequentava a igreja e tudo, mas no fim das contas o verniz era fino demais. Os negros sempre acabam aprontando” (pág. 299).

2 Comentários

  1. Olá Ricardo, tudo bom?
    Acho incrível o modo como você consegue transmitir suas impressões e me fazer desejar ler o livro. Fiquei bastante interessada, principalmente por retratar uma época tão difícil dos EUA. Gosto muito de livros que revelam a história sob a narração de uma criança. Já entrou na lista.
    Beijos,

    Paula Santos-http://leitoraneurotica.blogspot.com.br/

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  2. Olá Ricardo!
    Não conhecia o livro, mas gostei de saber mais sobre ele. Acho que a até hoje existe uma segregação e um preconceito forte nos EUA. Com certeza era muito pior antes, já melhorou bastante, mas existem ainda muitos problemas quanto a isso por lá. Acho que até aqui também.
    É bom ver um livro que trata de preconceito, porque nos coloca para pensar.
    Beijos!

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