Olá, pessoal. Tudo bem?
Vamos já começar com um exemplo:

"Marcos morava sozinho e não tinha o hábito de receber visitas. Certa noite, enquanto tentava dormir, foi surpreendido com um barulho na sala de seu apartamento. Desinteressado, voltou à sua tarefa"
Reparem bem: Marcos vive sozinho. Não recebe visitas. Ouve um barulho na sala... e o ignora?!
Como assim?

Qualquer pessoa agiria em uma situação dessas. Iria se esconder, pegar algum vaso para se proteger, se esgueirar... Mas alguma coisa ia ser feita!

Isso é a verossimilhança. A ligação, nexo ou harmonia dos fatos. Mesmo que o seu personagem não seja um homem (pode ser um animal, robô ou alienígena), é de se esperar que ele tenha reações humanas: ter medo, reagir quando atacado (com fuga ou dando o troco), ser subjugado, não realizar coisas sem treinamento (não leu o meu artigo sobre backgrounds? Leia aqui) e outras coisas.
Doce Vingança: uma garota atrapalhada é molestada e
vira uma ninja assassina que se esconde em uma cidade
que nem os moradores conseguem encontrá-la (?!).
A meu ver, podemos definir que há dois tipos de verossimilhança: a interna e a externa.

Na primeira, trabalhos com o âmago do personagem. Seus medos, seus receios, seus ganhos e custos dentro de uma situação. Exemplo: se um guerreiro aponta uma espada para o pescoço do protagonista, a vida dele está em jogo. E se tal guerreiro é experiente ou o personagem principal está cansado, é insensato reagir. Por quê? Porque o protagonista está correndo o risco de ser degolado, oras!

Na segunda forma, o protagonista trabalha com as informações externas: seus backgrounds e o espaço ao redor justificam seus atos. Outro exemplo: o protagonista é um rapaz no Brasil, ex-militar que foi dispensado do serviço e trabalha como faxineiro. Ele dirige seu fusca até o trabalho e encontra uma mulher sendo atacada por um zumbi. Ele vai salvá-la tirando um taco de beisebol do porta-malas? Claro que não!

Porque é importante termos personagens verossímeis: porque eles geram empatia. Eles fazem o que faríamos, sofrem como nós sofreríamos e comemoram como comemoraríamos. Se você quiser criar um personagem frio e sem sentimentos, OK. Mas das duas, uma: ou ele vai mudar no decorrer da sua narrativa e se tornar um ser melhor (mais humano, com razão e sentimentos) ou ele vai ter uma pessoa normal com quem interagir e dar o contraste. Ninguém suporta ver aquele sujeito que é um babaca frio e sem sentimentos passar a saga inteira... como um babaca frio e sem sentimentos!

Anastasia Steele: garota insegura e de
poucos relacionamentos no mundo do BDSM (?!?!).
E a empatia, o que seria?

A empatia é a capacidade de compreendermos o próximo ou de personificarmos em uma obra de arte uma característica humana.

O que ela tem a ver com a escrita? Simples: tudo!

No ato de escrever, o bom escritor faz uma pesquisa para evitar estereótipos e cria um personagem com características de sua época ou localidade, além de dar a ele uma personalidade. Somando tudo isso, ele o coloca em situações em que ele vai mostrar como age (ou não) e gerar identificação com o leitor.

E como um leitor se identifica?

Quando o personagem age de forma verossímil!

Simples assim.

Então na próxima vez em que seu protagonista conseguir tocar piano com os dedos quebrados ou a namorada dele, que tem um amor verdadeiro por ele, não lamentar seu sofrimento, pense: você está sendo verossímil?

Obrigado a todos(as) e continuem escrevendo!

Sobre o Autor
Davi Paiva nasceu em São Paulo, Capital, em 1987. É graduado em Letras pela Universidade Cruzeiro do Sul. Participou de várias antologias da Andross, Terracota, CBJE, Navras, Literata, All Print, Aped e Darda Editora. Publica suas obras em diversos sites, entre eles o recantodasletras.com.br
Contato: davi_paiv@hotmail.com.

2 Comentários

  1. Olá Davi!
    Devo ter dito diversas vezes que eu simplesmente adoro os seus artigos e com este não foi diferente.
    E concordo com o que apontou sobre a verossimilhança. Mas ela também se aplica de uma outra maneira: O que seria impossível para nós meros mortais, é possível dentro do contexto em que a história se passa.
    O exemplo mais claro disso é o Super Homem. Dentro do universo dele é aceitável que ele seja capaz de voar, porque ele é um ser de outro planeta. =D
    E realmente se colocarmos um personagem tão fodão (igual eu fiz, sabe), que chega ao ponto dele ser chato e provavelmente vão abandonar a história.
    Acho que dar uma fraqueza é um outro ponto da verossimilhança. Ninguém é perfeito!
    Falei demais, desculpa!
    Beijos!

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    1. Oi, Ane-chan. Tudo bem?
      Obrigado pelos elogios em primeiro lugar.
      Agora sobre o que disse, a verossimilhança não se aplica necessariamente às capacidades físicas e sim ao comportamento do personagem.
      Realmente o Superman faz coisas incríveis por não ser humano. Mas como ele foi criado em uma fazenda no Kansas por bons pais, você jamais espera dele um comportamento racista ou irracional, não é mesmo?
      Um personagem pode ser fodão como um Dr. House da vida. Todavia, jamais espere que ele chegue em uma pessoa e diga "boa noite, como vai?" tal qual o nosso Homem de Aço faria.
      Não se preocupe. Você não falou demais. E é sempre um prazer falar contigo.
      Abraços.

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