Texto: Wallace Borges
Baseado: “Faroeste Caboclo”, de Renato Russo
Direção: Wallace Borges
Duração: 70 minutos
Gênero: Drama
Apresentação: 26 de setembro de 2015
Após a morte de seu pai, Santo Cristo conhece corrupção, drogas e poder. O destino o leva a Brasília. Chegando lá decide ter uma vida melhor, porém acaba caindo no mundo do crime e é preso. Na prisão conhece Maria Lúcia. Apaixonado, decide novamente mudar de vida, faz de tudo para se tornar uma pessoa honesta. Contudo, a chegada de um senhor misterioso em sua casa faz com que o destino lhe dê dois caminhos. Na tentativa de salvar sua mulher, Santo Cristo deixa tudo pra trás e quando volta tem uma surpresa: sua mulher agora é de seu maior inimigo. Com raiva, declara um duelo em rede nacional, todos vão até o local conferir quem sairá vivo nessa história.
Santo Cristo, uma história que você já conhece, mas de um jeito que nunca viu.
Ninguém precisa me conhecer profundamente para saber que pessimismo pode até ser considerado o meu segundo nome. Isso significa que demoro a acreditar que algumas coisas podem ser boas, como aconteceu na primeira vez em que soube que uma das músicas mais incríveis da Legião Urbana ganharia vida nas telas dos cinemas. Assim como São Tomé, só acreditei vendo e o resultado não poderia ter sido mais positivo, afinal, de um modo geral, apreciei o filme de René Sampaio.

Mas quando pensava que a canção “Faroeste Caboclo” não mais me surpreenderia em algum segmento artístico, eis que descubro Santo Cristo: Faroeste Caboclo nos Palcos. Não era mais capaz de duvidar de nada. Restava saber como os versos de Renato Russo seriam transformados em cenas de uma peça teatral e como a saga de João de Santo Cristo seria apresentada. Sabia apenas como tudo teria início: não tinha medo o tal João de Santo Cristo…

É preciso deixar claro que se alguém fizesse qualquer comentário sobre o trabalho do grupo Impacto Agasias antes da apresentação, provavelmente a sensação de estranheza me deixaria ainda mais curioso. Diferente de tudo o que já vi no teatro, Santo Cristo deixa claro, desde o primeiro momento, que tem uma identidade própria, capaz de se destacar e ao mesmo tempo inovar. Mais do que isso, a peça mostra que a simplicidade, quando bem executada, pode significar muita coisa. E aqui a tal simplicidade se destaca.

Para exemplificá-la basta dizer que não existe qualquer cenário, ou seja, as personagens ganham vida em um palco com apenas alguns elementos de cena, mas tornando possível a visualização de todos os lugares por onde João de Santo Cristo passou. Muito disso se deve aos improvisos que acontecem naturalmente a cada nova cena, em que um simples objeto pode ter uma importância enorme para todo o contexto do que é apresentado.
Foto: Reprodução/Facebook
Isso casa perfeitamente com os próprios atores em cena, tornando possível até usar o mesmo argumento anterior. Devido ao elenco reduzido, os atores têm a missão de dar vida à diferentes personagens e, por continuarem no palco a todo instante, eles mesmos acabam se tornando elementos indispensáveis para determinadas cenas. É bem verdade que a troca de personagens impede uma identificação maior, mas a sacada de deixar todos ali, apenas esperando o momento de agir, funciona muito bem.

Mas nada funciona tão bem quanto as cenas em Santo Cristo — para não dizer a apaixonante e inesquecível Maria Lúcia. O diretor Wallace Borges conseguiu unir cenas intensas e outras dramáticas; sensuais e outras cativantes; singelas e outras marcantes. Responsável também pelo roteiro, Borges se aproveitou do que foi deixado em aberto por Renato em outrora para encaixar tudo perfeitamente bem, embora a relação entre Santo Cristo e Maria Lúcia represente apenas uma pequena parte de toda a história. Através dessa união foi possível se encantar mesmo quando na teoria isso era praticamente impensável, além de demonstrar a química resultante de um trabalho que vem sendo feito há exatos dois anos.

Embora tal química seja fundamental, não é suficiente para que Santo Cristo convença em sua cena final. Sendo uma peça tão curta, imaginava ao menos uma tensão maior no tão aguardado confronto final entre João de Santo Cristo e Jeremias. A história como um todo merecia uma tensão marcante e ao mesmo tempo inesquecível, capaz de coroar um trabalho que conta uma história complexa através de toda a simplicidade natural do teatro.

Com cenas engraçadas que fogem de todo o resto (e que não necessariamente me atraíram), uma peça com grandes referências à obra da Legião Urbana deve ser reverenciada e, mais do que isso, apreciada. Afinal, as limitações do teatro parecem ser um combustível a mais para que a pegada inconfundível de “Faroeste Caboclo” ganhe vida também nos palcos através do profissionalismo do grupo Impacto Agasias.

2 Comentários

  1. Grato pela sua critica, conseguiu emocionar esse pequeno diretor kkkkkkk.Pode ter certeza que repensarei na cena final.

    Que bom que apesar de tudo você gostou da peça.

    Um grande abraço

    Wallace Borges

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  2. Olá Ricardo!
    Adorei ler essa crítica a peça.
    Eu nem cheguei a ver o filme que fizeram do Faroeste Caboclo. Mas achei bem legal a ideia de não cenário, abre algum espaço para a imaginação.
    Beijos!

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