Cidade Banida, Ricardo Ragazzo, 1ª edição, São Paulo-SP:
Planeta de Livros Brasil, 2015, 384 páginas.
Skoob: Clique Aqui.

Após muitas guerras, 99% da população humana foi completamente dizimada, enquanto os animais e vegetais sofreram grandes transformações. A maioria dos seres humanos acabou confinada dentro dos muros de Prima Capitale, mas não sem sofrer as consequências de um governo autoritário, que obriga todos os bebês a passarem pela aprovação de seres com poderes psíquicos capazes de prever o futuro. No caso de ser revelado que essa criança cometerá um crime, sua sentença é a morte.

Seppi Devone foi um desses bebês vetados, porém ela sobreviveu graças a coragem de sua mãe. No entanto, muitos anos depois, quando ela completa quinze anos, sua vida muda radicalmente e o destino aparece para mostrar que ela não é uma pessoa qualquer. Seppi, na verdade, é a única esperança de muitas pessoas oprimidas que esperam um dia se livrar de todo o mal que as cerca. Resta a jovem mostrar se realmente é capaz de cumprir a sua missão.

“Em poucos dias eu, uma garota de quinze anos, tinha deixado a pacata vila onde minha única preocupação era o jantar, para uma realidade dura na qual as vidas das pessoas eram depositadas na palma da minha mão. Mesmo com o peso da decisão me fazendo amadurecer em minutos, queimando várias etapas do meu desenvolvimento, eu cheguei à conclusão de que havia apenas uma coisa a se fazer, por mais difícil que ela pudesse ser” (pág. 155).
Já perdi as contas de quantas vezes afirmei que além de um dos meus escritores favoritos, Ricardo Ragazzo pode ser considerado um dos grandes nomes da atual geração da literatura brasileira. Isso não se deve apenas pelos magníficos livros, nos gêneros que mais me agradam, como também pela indiscutível qualidade de seus textos. Porém foi a criação de um universo próprio que provou, de uma vez por todas, que o autor tem muito a apresentar.

Embora ele já tenha inovado em A Garota das Cicatrizes de Fogo, o ápice de sua criatividade acontece em seu mais recente trabalho. Em Cidade Banida, o seu primeiro pela editora Planeta de Livros Brasil, Ragazzo apresenta a complexidade do universo Glimpse, revelando um cenário distópico que tem como grande destaque a originalidade, não podendo ser comparado com qualquer título referência no gênero em questão. Por isso essa é uma das melhores distopias que tive o prazer de ler.

Para se chegar a isso foi preciso, antes de qualquer coisa, uma protagonista diferenciada. Seppi Devone, responsável pela narração em primeira pessoa, sempre teve uma vida de mentiras, inclusive sobre sua própria personalidade, e, por isso, quando descobre que seu destino pode representar a esperança de muitas pessoas, ela passa a se aventurar pelo desconhecido. O resultado é que conforme adquire conhecimento, ela o apresenta através de suas palavras, ou seja, conheci o universo de Cidade Banida ao mesmo tempo em que a própria personagem principal.

Mas isso acabou se tornando um problema. A grande quantidade de informações, natural em livros do gênero, foi praticamente jogada no meu colo, me obrigando a me esforçar para compreender, o mais breve possível, detalhes políticos e sociais que comandam todo o desenvolvimento do enredo — sem contar o passado e os próprios poderes, fundamentais neste universo. E como tudo acontece de modo muito particular, acaba sendo necessário um pouco mais de tempo para compreensão total.

Em contrapartida, algo que a princípio considerei um grande problema não demora a merecer elogios, visto que a compreensão de tudo realmente me levou para dentro da obra. Cidade Banida talvez não tenha envolvido tanto quanto os livros anteriores de Ragazzo, visto que os devorei como um andrófago faminto por carne humana, mas fiquei com a mesma sensação de estar lidando com um enredo que tinha tudo para se tornar cada vez mais fantástico. O que mais uma vez aconteceu!

Se em 72 Horas para Morrer o desfecho me pegou desprevenido e em “A Garota das Cicatrizes de Fogo” o mesmo se mostrou totalmente original, o desfecho de Cidade Banida foi capaz de me deixar completamente sem fôlego. Em partes porque acontecem reviravoltas inimagináveis, no entanto ele também possui um ritmo alucinante, tornando-se impossível desviar a atenção das páginas do livro por um instante sequer. Era como se entrasse na mente de Seppi e passasse a ser o único responsável por todos os seus atos.

Infelizmente isso não acontece ao longo de todo o livro. Apesar de ser dividido em diversas cenas, os capítulos longos e a grande quantidade de informações resultaram em uma leitura mais demorada do que o esperado, o que não significa que não tenha apreciado essa leitura. Principalmente o seu final. A última cena encerrou de maneira incrível a primeira parte da aventura de Seppi Devone e deu origem a um único sentimento: eu preciso da continuação i-me-di-a-ta-men-te!

“Minha cabeça rodopiava em frenesi. Meu cérebro dava indícios de que explodiria sob o impacto menor dos sussurros, e meu estômago urgia em regurgitar o pouco que eu havia consumido nas minhas últimas refeições. Estava fraca, tonta, enjoada e, acima de tudo, cansada. Ainda assim, um sorriso atônito de satisfação cobriu meu rosto com o deleite da imagem do Oni acéfalo alguns metros à frente” (pág. 218).

3 Comentários

  1. Oi Ric,
    Primeiramente, eu não fazia ideia de que o livro há continuação o.O Fui pega totalmente de surpresa agora.
    Pelo pouco que observei ao ler as resenhas e a sinopse realmente o Ricardo inovou na quantidade de criatura sobrenaturais e como você me conhece já vi que vou ter dificuldade de entender todo o enredo. Mas é como você mencionou, quem sabe fazendo a leitura com calma eu consiga entender tudo ;) rs rs
    E estamos juntos no fã clube do Ragazzo hehehe
    Beijos
    Lylu - http://reliquiasdalylu.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Você faz uma resenha maravilhosa, aí eu fico c vontade de ler e a criatura não empresta o livro. Okay... Okay... Kkk
    Está muito bom o que tu escreveu, parabéns. :3
    Beijos.

    ResponderExcluir
  3. Olá Ricardo!
    Adorei a resenha. E acabei me lembrando de Aeon Flux e de Shingeki no Kyojin enquanto lia esta resenha. Deve ser porque ambas as histórias tratam sobre uma humanidade dizimada e onde sobre apenas uma cidade.
    Mas tenho certeza que a obra tem seus pontos únicos, como os seres psíquicos que "aprovam" ou não as crianças.
    Deve ser uma leitura excelente!
    Beijos!

    ResponderExcluir