Olá, pessoal. Tudo bem? Espero que sim.
Hoje eu vou falar sobre uma das coisas mais difíceis que aprendi junto com a técnica do ponto de vista (não viu? Leia aqui), mas que fez toda a diferença no meu trabalho como escritor.

Hoje eu vou falar de cenas.

Não importa se o livro é em série ou fechado. Cada obra é dividida em capítulos, cada capítulo em subcapítulos, e cada capítulo em trechos que chamamos de cenas. Portanto a cena é a célula de um texto independente de seu tamanho. Uma formiga possui células e uma baleia também, certo? Um conto possui cenas assim como um romance.

Sabe nos filmes quando você diz “adoro aquela parte em que o sujeito entra correndo no aeroporto para impedir a amiga de ir embora e se declara para ela”? Isso é uma cena. Ou quando o personagem está em uma sala olhando os relatórios de lucro da empresa e decide aumentar o salário dos funcionários? Isso também é uma cena.

Uma cena se passa em qualquer lugar. Nela, teremos um personagem (ou mais de um) com um objetivo. Isso é obrigatório.

• Cena = Personagem com objetivo.
Se não há nenhum problema, ele consegue cumprir. Vá pegar um copo com água, por exemplo. Você teve dificuldades?

Deu sede? Vá pegar
Então vamos ao cálculo:

• Personagem: você;
• Cena: você está lendo esse texto e vai pegar um copo com água;
• Objetivo: ir à cozinha, pegar água;
• Resultado: tudo certo;
Daqui em diante, entra tudo que é opcional. Vai de o escritor decidir se ele coloca ou não em sua trama.

Nem tudo são flores. E se você estivesse morrendo de sede, fosse pegar um copo d’água e descobrisse que não tem água?

Temos o seguinte panorama:

• Personagem: você;
• Cena: você está com sede e descobre que não tem água;
• Objetivo: conseguir água;
• Obstáculo: lembrar onde arrumar água (geladeira ou filtro) ou pensar em formas de obter água fora de casa (pegar com um vizinho ou comprar um galão);
Mas espere aí... Por que raios eu vou dificultar as coisas para o meu personagem? Por que devo colocar obstáculos?

Você não deve. Isso é fato. Todavia, você precisa concordar que a sua vida até aqui não foi fácil e nem o futuro será. Você terá problemas com tempo, dinheiro, pessoas, produtos e outros recursos. E seu personagem não é diferente. Mesmo que ele seja um alien, um animal ou um robô, ele será dotado de características humanas.

Então é normal colocar obstáculos em seu caminho: lugares distantes, sujeira, bagunça, pouca luz, pessoas perigosas, inimigos fortes, som alto, equipamentos que quebram, alarmes, etc.

Digo e repito: vai da sua necessidade definir o que vai ser difícil para o personagem ou não. Na saga de Harry Potter, o protagonista treina muito para lançar o feitiço do patrono no terceiro livro. Nos outros, vira um de seus truques mais fáceis.

Então como podemos ver, toda cena tem PERSONAGEM e OBJETIVO. Mas também pode ter OBSTÁCULOS.

• Cena = Personagem + Objetivo + OBSTÁCULO.
Aí voltamos para a sua “missão” de conseguir água. Suponhamos que você vá à casa de vizinhos e consiga um copo na casa de um deles. Aí temos a quarta etapa, que é o RESULTADO.

• Personagem: você;
• Cena: você está com sede e descobre que não tem água;
• Objetivo: conseguir água;
• Obstáculo: lembrar onde arrumar água (geladeira ou filtro) ou pensar em formas de obter água fora de casa (pegar com um vizinho ou comprar um galão);
• RESULTADO: obter na casa de um vizinho;
Vale lembrar que nem tudo na vida dá certo. No segundo filme do Sherlock Holmes interpretado por Robert “Homem de Ferro” Downey Jr., por exemplo, o personagem principal se safa de uma briga (cena 1) e consegue deter uma explosão, apesar de não salvar um sujeito em um leilão (cena 2).

Por último, temos uma parte chamada SEQUELA, onde você aprende alguma coisa com isso.

• Cena = Personagem + Objetivo + Obstáculo → SEQUELA.
Por que é importante ter uma sequela?

Porque todo mundo aprende algo depois de uma experiência. Não conversar com estranhos... Fazer a lição de casa antes de jogar videogame... Não se apaixonar por gente comprometida (embora alguns insistam nisso!), etc.

Depois da sequela, temos o DILEMA, onde o personagem pondera sobre a sua experiência.

E por último, a DECISÃO onde ele pondera se vai fazer isso de novo ou não.

Vamos usar novamente o exemplo da tintura:

• Personagem: você;
• Cena: você está com sede e descobre que não tem água;
• Objetivo: conseguir água;
• Obstáculo: lembrar onde arrumar água (geladeira ou filtro) ou pensar em formas de obter água fora de casa (pegar com um vizinho ou comprar um galão);
• Resultado: obter na casa de um vizinho;
• Reflexão: não ter água é arriscado;
• DILEMA: o que fazer?
• DECISÃO: comprar um galão.
Pronto! Terminamos a nossa cena! Quem diria que obter um copo com água daria tanto trabalho!

Então a nossa fórmula matemática do começo fica:

• Cena = Personagem + Objetivo + Obstáculo. Resultado gera Sequela (Reflexão + Dilema + Decisão)
E não se esqueçam: se quiserem tirar algo, tirem do último item ao primeiro: talvez seu personagem seja um serviçal (o que o torna isento de tomar decisões, ou seja, sem Decisão) e não seja lá muito racional (o que o impede de entrar em Dilemas e consequentemente, ter Decisões) ou talvez seja do tipo que trabalha no “piloto automático (sem Reflexão e por consequência, sem Dilema e nem Decisão), seus problemas sejam simples (nem tudo gera Sequela. Daí, não temos Reflexão, Dilema ou Decisão) e no fundo, talvez nem sejam problemas (daí não temos obstáculo. Ufa!).

Acham que isso acabou?

Claro que não!

Agora temos a cena 2: vocês precisam comprar um galão. Quem garante que vocês tenham dinheiro? Ou quem sabe ao irem comprar um galão, vocês não possam conhecer o amor de suas vidas? Talvez você chegue ao ponto de comércio e testemunhe um assalto ou uma traição... e assim por diante!

Vale esclarecer que uma cena muda depois que o objetivo é conquistado ou não (exemplo: protagonista quer desarmar uma bomba e corta o fio errado, acelerando o tempo ficando com dez segundos para escapar (cena 1: objetivo não alcançado. Cena 2: procurar escapar do alcance da explosão), assim como quando mudamos o tempo/espaço.

Exemplo 1

Lucas chegou ao restaurante às nove em ponto. Para matar o tempo, começou a ler o jornal e se distraiu tanto com isso que só deu por falta da namorada quando faltavam treze minutos para as dez horas.
Exemplo 2

Michael sabia que não era educado sair da mesa no meio de uma negociação. Mesmo assim, arriscou:
— Posso ir ao banheiro?
O chefe da máfia deu permissão e ele foi ao banheiro do restaurante procurar a arma que seu irmão havia deixado.
Reparem que no exemplo 1, Lucas tem um salto no tempo de 9h (onde tinha um problema: o que fazer enquanto a namorada não chegava) para 9h47 (onde o problema do atraso dela já era insuportável). Já no exemplo 2, Michael tinha um problema (o risco de sair da mesa) e dava de cara com outro (encontrar a arma no banheiro).

Como pode ver, uma cena bem trabalhada torna o personagem mais humano e faz com que possamos nos identificar com ele. Nunca viram aquele caso de personagem que sempre repete o erro? É porque ele não aprende. E ninguém quer ver o mesmo erro duas ou três vezes.

Um bom exemplo de cena que ajuda a evoluir o personagem está na lenda de Hércules: ao matar o Leão de Nemeia, o protagonista ganha sua pele e passa a ser invulnerável a ataques físicos. Isso o ajuda a matar uma quimera e ele ganha seu veneno, que ele usa para matar aves mitológicas. Viram? Cada cena anterior lhe dá experiência para vencer a próxima

Qualquer coisa, leiam os livros da série Book in a Box de Nano Fregonese e Camila Prietto, da DVS Editora.

Espero que tenham gostado. Sei que esse é um assunto difícil então deixem suas dúvidas nos comentários, ok?

Obrigado a todos(as) e continuem escrevendo!

Sobre o Autor
Davi Paiva nasceu em São Paulo, Capital, em 1987. É graduado em Letras pela Universidade Cruzeiro do Sul. Participou de várias antologias da Andross, Terracota, CBJE, Navras, Literata, All Print, Aped e Darda Editora. Publica suas obras em diversos sites, entre eles o recantodasletras.com.br
Contato: davi_paiv@hotmail.com.

2 Comentários

  1. Olá Davi!
    Seus artigos sempre ótimos e esclarecedores.
    Ainda me lembro de um artigo sobre cenas também, mas ele estava tão confuso. Os seus exemplos e modo de explicação deixaram tudo muito mais claro e simples de se entender.
    O engraçado é eu ler esses artigos e perceber que são coisas que nunca estudei. Eu aprendi a escrever cenas, fazendo cenas. Como costumo brincar: colocando a cara a tapa. haha
    Beijos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Ane.
      Obrigado pelos elogios.
      Sei como é ser autodidata. Dar a cara a tapa faz parte do processo. O bom é quando fazemos isso conscientemente. É a diferença entre briga de rua e boxe. Sacou a analogia?
      Abraços.

      Excluir