O Berço do Herói, Dias Gomes, 6ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Bertrand Brasil, 2015, 154 páginas.
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Cabo Jorge, morto na Itália durante a guerra, se tornou herói em sua cidade natal, que venera a sua bravura diante dos nazistas. Isso encheu de orgulho o coração da pátria e sua cidade, modesta e perdida no interior do país, adotou o nome de Cabo Jorge, passando a ser um centro turístico e a realizar diversas comemorações em homenagem ao filho ilustre.

Porém, anos depois, o militar reaparece na cidade, como se tudo não passasse de uma grande brincadeira. A verdade é que ele apenas foi ferido em combate e fugiu da luta, mas a volta do Cabo Jorge (o cabo) pode arruinar o comércio e a indústria de Cabo Jorge (a cidade), destruindo os interesses de muitas pessoas.

“(...) Cabo Jorge pertence a esta nossa geração que, muito antes de chegar à idade da razão, recebeu a notícia, jamais dada a outros antes de nós: o homem adquiriu o poder de destruir a humanidade. Num mundo assim, que poderá desaparecer de um momento para outro, ao simples premir de um botão, certos conceitos de heroísmo, de dignidade, lhe parecem absurdos, ridículos (...)” (pág. 52).
Ter em mãos uma obra de Dias Gomes significa apreciar o que de melhor foi produzido no teatro durante a segunda metade do século passado, ainda mais se tratando de O Berço do Herói, peça que deu origem a uma das novelas de maior sucesso da televisão brasileira. Mas no meu caso em especial, ter em mãos uma obra de Dias Gomes significa corrigir o erro de desconhecer por completo a obra escrita de um dos imortais da literatura brasileira.

O Berço do Herói teve sua primeira montagem em 1965 e, embora tenha como pano de fundo a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, não deixa de fazer o seu papel crítico ao tratar a influência militar na sociedade brasileira. Essa crítica acontece quase nas entrelinhas, por isso que, em outros tempos, poderia talvez até ser ignorada, mas na ocasião vivíamos sob um regime militar que anos mais tarde inclusive impediria a exibição da novela “Roque Santeiro” (1975), novela essa que seria regravada dez anos mais tarde.

Mesmo tantos anos depois, é possível afirmar categoricamente que O Berço do Herói é uma obra atemporal. O contexto histórico pode até nos revelar personagens que na teoria não se enquadrariam na atual sociedade, mas ao se aprofundar em cada uma delas ficou claro que representam muito mais do que personagens ficcionais. Mesmo sem todos os recursos de uma obra em prosa, Dias Gomes construiu personagens excepcionais e memoráveis.

Uma dessas personagens não poderia ser outra que não Cabo Jorge. O que de melhor ele tem a passar vem exatamente de todas as personagens que por interesses próprios constroem a imagem de um santo e depois, com a sua volta, precisam encontrar uma solução prática para que nada venha por água abaixo. De herói Cabo Jorge não tem absolutamente nada e em sua essência revela a profundidade que resume bem o que é encontrado de bom e ruim em cada ser humano, sendo assim uma personagem verdadeira a ponto de instigar a essência das personagens que o cerca. Prova disso é o desfecho da história!

Ao ter esse tipo de personagem, a peça cumpre o seu papel de desmitificar os heróis construídos pelo povo, mesmo quando o heroísmo vem apenas para aliviar as dificuldades — aqui ajudando o fortalecimento da economia e o turismo local. A união do sucesso e das mazelas sociais torna impossível classificar com exatidão o estilo da obra. Poderia simplesmente ser uma comédia, pois o enredo pede situações hilárias, contudo também apresenta dramas que contribuem facilmente para uma dúvida que no geral não faz qualquer diferença.

O Berço do Herói dispensa classificações e reúne um pouco de tudo o que de melhor pode existir no teatro/literatura: personagens marcantes, diálogos fortes e enredo envolvente.

Mesmo que a experiência de se ler um roteiro de uma peça de teatro seja nova, nem por isso deixou de ser especial. É bem verdade que como um escritor de textos em prosa preferiria mil vezes que esta história também fosse contada através de um romance, porém a genialidade de Dias Gomes ao narrar um enredo tão complexo e com tanta perfeição, apesar do simples exigido pelo teatro, não poderia jamais ser ignorada. O que talvez explique a vontade de ver uma adaptação ou quem sabe assistir a tão famosa novela supracitada.

“CABO JORGE
Sabem o que eu acho? Que o tempo dos heróis já passou. Hoje o mundo é outro. Tudo está suspenso por um botão. O botão que vai disparar o primeiro foguete atômico. Este é que é o verdadeiro herói. O verdadeiro Deus. O deus-botão. Pensem bem: o fim do mundo depende do fígado de um homem” (pág. 135-136).

Um Comentário

  1. Olá Ricardo!
    Eu não conhecia essa obra e achei bem interessante o tema que ela aborda.
    Com certeza seria legal ver alguma outra adaptação dela.
    Beijos!

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