O Santo Inquérito, Dias Gomes, 34ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Bertrand Brasil, 2015, 126 páginas.
Skoob: Clique Aqui.

Paraíba, 1750. Em um ato de bondade, a jovem Branca Dias se atira no rio para salvar a vida de Padre Bernardo e impede que o sacerdote morra afogado. No entanto, o que poderia ser apenas um episódio insignificante de sua vida, na verdade é o ponto de partida para que tudo comece a desmoronar.

Após o salvamento, Branca revela ao padre a sua crença em Deus, apesar de não possuir um confessor e não ir à missa aos domingos. Para ela, o mais importante era sentir Deus em todas as coisas que lhe davam prazer, mas Padre Bernardo acha suas revelações suspeitas e teme que o demônio esteja corrompendo a jovem sonhadora, por isso a procura para tentar, em vão, convertê-la. Ingênua, Branca se abre ao seu novo confessor, enquanto este, para livrá-la da heresia, é capaz de acusá-la à santa inquisição.
“(…) Deus deve estar onde há mais claridade, penso eu. E deve gostar de ver as criaturas livres como Ele as fez, usando e gozando essa liberdade, porque foi assim que nasceram e assim devem viver. Tudo isso que estou lhes dizendo é na esperança de que vocês entendam… Porque eles, eles não entendem… Vão dizer que sou uma herege e que estou possuída pelo demônio. E isso não é verdade! Não acreditem! Se o Demônio estivesse em meu corpo, não teria deixado que eu me atirasse ao rio para salvar Padre Bernardo, quando a canoa virou com ele!…” (pág. 30).
Pouco se sabe sobre Branca Dias, figura lendária do nordeste brasileiro que inspirou O Santo Inquérito. A exemplo de Joana D’Arc, Branca foi vítima da inquisição e, condenada por heresia, queimada na fogueira após ser acusada de cometer diversos atos contra a moralidade e a própria fé cristã. Ainda segundo a lenda, em noites de lua cheia ela vaga pelas ruas silenciosas da capital paraibana para visitar o noivo prisioneiro e torturado, que preferiu morrer a acusá-la por um crime que não cometeu.

Mas ao falar sobre as personagens da peça teatral escrita no auge de sua carreira como dramaturgo, Dias Gomes fez questão de deixar claro que para ele, o que realmente era importante, é que Branca Dias realmente existiu — afinal, foi sua existência que possibilitou a escrita dessa obra. Hoje, ao falar sobre as mesmas personagens, afirmo que as contradições existentes entre as diversas versões da história desta heroína do nordeste brasileiro pouco importam quando apenas engrandeceram o valor literário de O Santo Inquérito.

A riqueza da obra está muito além do fator histórico explorado pelo autor do princípio ao fim. É bem verdade que retratar a Era Colonial significa mostrar como o país era dependente das leis e costumes em vigor em Portugal, no entanto, a partir do momento que defende o direito do ser humano de expressar a sua fé, o autor está indo muito além e cumprindo o objetivo de todo artista: ser a voz de todos aqueles que, por qualquer que seja o motivo, não conseguem ser ouvidos.

Contudo, este continua não sendo o ponto principal da obra em questão. Como possui poucos personagens e os em destaque estão ainda em menor número, o dramaturgo pôde construir todos eles com a maestria necessária para que não fossem apenas meros detalhes de sua história. A protagonista, por exemplo, se divide entre a ingenuidade de uma mulher sonhadora, que vê no amor pelo noivo o seu grande alicerce, e a consistência de seus argumentos ao refletir sobre Deus e o homem como Sua humanização.

O mesmo vale para Padre Bernardo, aquele que causa revolta por suas atitudes e que, embora exerça o sacerdócio, tem em seu desejo carnal por Branca Dias a prova de que todos estão suscetíveis aos prazeres do corpo. Enquanto isso, o pai e o noivo da protagonista representam as contradições dos seres humanos, que estão passíveis a diferentes atitudes, mesmo quando têm em comum um único objetivo.

A presença de personagens como estes tornam O Santo Inquérito uma peça diferenciada e, mesmo que não tenha a mesma popularidade de O Berço do Herói, tenho a ousadia de afirmar que essa é mais madura e, como consequência, muito mais envolvente. Não apenas por retratar a lamentável era da inquisição, que destruiu pessoas com a mesma facilidade com que construiu mitos, mas por explorar a fundo a relação das pessoas com a religião, inclusive quando são obrigadas pela Igreja e por seus líderes a acreditar e professar uma única crença.
“BRANCA
Agora já não sei de mais nada. Os senhores lançaram a dúvida e a confusão no meu espírito e eu já nem tenho coragem de pedir a Deus que me esclareça. Cada gesto meu, mesmo o mais ingênuo, parece carregado de maldade e destruição” (pág. 113).

2 Comentários

  1. Olá Ricardo!
    Nunca tinha ouvido falar desse livro/peça. E é bem legal que ele explore uma personagem que realmente existiu.
    O autor com certeza soube construir uma história para ela, dando-lhe uma, já que se sabe pouco.
    Interessante a obra falar sobre a religião atua sobre nossas vidas algumas vezes!
    Beijos!

    ResponderExcluir
  2. Não conhecia esse livro e nem essa figura lendária que é a Branca.
    Acho que foi esse fato que me fez ficar mais interessada em ler o livro.
    Sempre gosto de conhecer histórias de personagens que existiram.
    Bjo

    ResponderExcluir