A Invasão, Dias Gomes, 7ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Bertrand Brasil, 2015, 154 páginas.
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Após uma enchente que destruiu seus barracos em uma favela, várias famílias são obrigadas a encontrar um novo lugar para morar e acabam invadindo o esqueleto de um prédio abandonado, onde querem recomeçar suas vidas, mesmo sabendo que a qualquer momento podem ser despejadas. Mas as promessas de políticos e a exploração de pessoas que visam seus próprios interesses pode colocar em xeque o recomeço ou mesmo moldar as atitudes de todos que estão em busca de melhores condições de vida.
“(...) Fizeram muito bem, invadindo esta construção, resolvendo por suas próprias mãos um problema que os homens públicos não querem resolver. Fizeram muito bem e aqui estou, não só para lhes dar o meu apoio, como também para assumir um compromisso solene. (Faz uma pausa de efeito). Se reeleito nas próximas eleições, comprometo-me a apresentar um projeto desapropriando este prédio e entregando-o aos seus heroicos conquistadores!” (pág. 83).
A Invasão não é uma peça teatral qualquer, porém não significa que seja de brilhantismo semelhante ao de outros trabalhos de Dias Gomes. E se é possível fazer uma comparação com O Santo Inquérito, por exemplo, só me vem na cabeça que em ambos os trabalhos o autor usa o poder da arte para falar sobre os mais necessitados, em épocas completamente distintas. Nada além disso.

E vale destacar que essa pode ser considerada uma obra atemporal, afinal, infelizmente, as décadas se passaram, mas muitas famílias ainda enfrentam situações semelhantes às de A Invasão. E não falo apenas de desastres naturais que destroem casas e deixam famílias inteiras desalojadas quase que diariamente Brasil a fora. O problema é muito mais complexo e talvez por isso a peça causou certa polêmica na época de seu lançamento — a peça chegou a ser proibida pelo AI-5 durante Ditadura Militar.

Isso porque a população carente sempre esteve nas mãos dos políticos e de suas promessas esfarrapadas que visam interesses que não são para o benefício do povo. Neste caso, enquanto as famílias retratadas tentam recomeçar a vida no esqueleto de um prédio abandonado, precisam torcer para que não sejam despejados, o que não os impede de sonhar. O problema é que são pessoas vulneráveis, ou seja, elas caem facilmente na lábia de terceiros — mais um detalhe que continua existindo até os dias de hoje.

Mas, diferente das duas peças lidas anteriormente, nem mesmo a importância de retratar este tema fez com que me envolvesse com a história. Como em outras situações, o grande número de personagens pode ter influenciado a falta de envolvimento e identificação com um ou outro, mas também em nenhum momento consegui visualizar a peça em si. Por ser uma proposta diferente, em que muitas coisas acontecem simultaneamente e da qual não estou acostumado, não encontrei nada que me atraísse; apenas me senti confuso do princípio ao fim.

Por sorte algumas cenas marcantes não passam despercebidas e, mesmo que o todo não tenha me conquistado, se realizar uma divisão de determinados acontecimentos muitas coisas acabam agradando mais ao ser isolado e consequentemente deixando, em um ou outro momento, a leitura menos confusa. A explicação para isso é que mais do que um enredo linear, A Invasão apresenta o povo em sua forma legítima e o desfecho é apenas consequência de seus próprios atos.

Para quem se surpreendeu com o enredo de “O Santo Inquérito” e a qualidade de O Berço do Herói, A Invasão fica bem aquém do esperado, mas sua importância histórica e social muito provavelmente faz desta uma obra para ser refletida. Se não em relação aos nossos próprios atos, ao menos como o povo mais necessitado é tratado pelos grandes nomes do poder.
“MALU
Ele gosta de mim. Não pode casar, porque é casado. Alugou um apartamento pra mim em Copacabana e vai me dar tudo! (Grita desesperadamente, como se quisesse impor ao mundo inteiro as suas justificativas). Ele é rico! Vou poder me vestir como todo mundo, comer e dormir numa cama de verdade! Tou cansada de passar forme, de viver como porco em chiqueiro! Se os outros podem viver de outro jeito, eu também devo poder! E se não pode ser de outro modo, que importa… tou decidida!” (pág. 118).

3 Comentários

  1. Oi
    não conhecia o livro e nem o autor, parece ser uma obra diferente e que retrata a situação real de muitas pessoas, deve ter sido uma boa leitura.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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  2. Olá Ricardo!
    Nunca tinha ouvido falar desse livro. Acho que você ter falado que a história tem muitos personagens, e provavelmente sem foco em nenhum deles, me lembrou O Cortiço.
    E realmente é um tema praticamente atemporal.
    Beijos! :3

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  3. Olá Ricardo,

    Não conhecia o livro, mas fiquei com uma imensa vontade de ler, também gostei muito da capa, dica anotada...abraço.

    devoradordeletras.blogspot.com.br

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