A literatura perdeu na última sexta-feira, 19, dois dos mais importantes nomes do século XX. Morreram os escritores Umberto Eco, italiano conhecido pelo livro “O Nome da Rosa” (Record), e Harper Lee, norte-americana autora do clássico “O Sol é para todos” (José Olympio).

A morte de Harper Lee foi anunciada no início da tarde de sexta-feira pelo jornal The New York Times, após a confirmação de diversas fontes de Monroeville, cidade no Sul dos Estados Unidos onde a escritora vivia em uma casa de repouso. Aos 89 anos, Lee era uma das mais importantes escritoras da literatura norte-americana, embora tenha publicado apenas dois livros ao longo de sua carreira e permanecido décadas sem participar de eventos literários.

Ao comentar sobre a morte de Harper Lee, o presidente norte-americano, Barack Obama, declarou a necessidade de repassar a história de “O Sol é para todos” às futuras gerações. Segundo ele, “através dos olhos não corrompidos de uma criança, ela nos mostrou a bela complexidade da nossa humanidade, bem como a importância de lutar por justiça em nossas próprias vidas, nossas comunidades e nosso país”.

Já a morte de Umberto Eco aconteceu em Milão, por volta das 22h30 horário local (19h30 pelo horário de Brasília). O escritor, de 84 anos, lutava contra um câncer, porém a causa de sua morte não chegou a ser revelada. Ao longo de sua carreira, Eco públicou diversos ensaios e sete romances, destacando-se, além de “O Nome da Rosa”, os livros “O Pêndulo de Foucault” e “O cemitério de Praga”. O seu último romance, “O número zero” (Record), foi publicado em 2015.

Políticos e escritores comentaram sobre o legado de Umberto Eco. Segundo Matteo Renzi, primeiro-ministro da Itália, Eco foi “um exemplo extraordinário de intelectual europeu, unia uma inteligência única com uma capacidade incansável de antecipar o futuro”. O escritor canadense Guy Gavriel Kay se manifestou através do Twitter dizendo que “Umberto Eco era um ser humano multi-talentoso, genuinamente interessante (e interessado). Escreveu de forma ampla, e bem. Ele fará falta”.

Umberto Eco
Umberto Eco nasceu em Alexandria, Norte da Itália, em 05 de janeiro de 1932. Apesar do desejo de seus pais que ele se tornasse advogado, Eco estudou filosofia medieval na Universidade de Turim, onde mais tarde se tornou professor, e publicou uma tese de doutorado sobre São Tomás de Aquino.

No início da década de 60, o escritor casou com Renate Ramge, com quem teve dois filhos, e fundou um grupo cultural formado por importantes nomes da arte italiana que tinha como objetivo analisar a cultura de massa, buscando unir a classe artística e o público geral. Durante os anos seguintes publicou antologias de ensaios sobre filosofia, semiótica e linguística, algumas de suas especialidades.

O escritor já era um dos intelectuais mais respeitados do seu tempo quando publicou o seu primeiro romance, em 1980, aos 48 anos. “O Nome da Rosa”, livro mais importante de sua carreira, o tornou famoso no mundo inteiro e foi adaptado ao cinema pelo diretor Jean-Jacques Annaud. O romance se passa em 1327 e narra a história do frei Guilherme de Baskerville, que tem a missão de investigar monges de um mosteiro franciscano que são suspeitos de cometer heresias.

Após o lançamento de “O Nome da Rosa”, Umberto Eco publicou outros seis romances, sendo o segundo deles em 1988. “O Pêndulo de Foucault” mostra redatores de uma editora de Milão que, lendo manuscritos antigos, encontram indícios de que um complô que se iniciou no século XIV persiste mais de seiscentos anos depois.

Durante as duas décadas seguintes o escritor publicou, além de ensaios de grande importância, os romances “A ilha do dia anterior”, “Baudolino”, “A misteriosa chama da rainha Loana” e “O Cemitério de Praga”. O seu último romance, “O número zero”, chegou às livrarias em 2015 e apresenta um grupo de redatores que prestam serviços questionáveis a um editor com o intuito de chantagear adversários políticos.

O escritor, que dividia seu tempo entre o apartamento em Milão e uma casa de veraneio, possuía uma biblioteca particular com cerca de 50 mil exemplares. O seu velório acontecerá na próxima terça-feira, 23, no Castelo Sforzesco, em Milão, próximo a sua residência.

O editor de Umberto Eco anunciou neste sábado que adiantará o lançamento do novo livro do escritor. “Pape Satan Aleppe” reunirá artigos publicados por Eco desde 2000 e será lançado na Itália no próximo fim de semana. Ainda não há informações sobre o lançamento no Brasil.

Harper Lee
Ganhadora do Prêmio Pulitzer de Ficção em 1961, pelo livro “O Sol é para todos”, Nelle Harper Lee nasceu em 28 de abril de 1926 em Monroeville, cidade que a inspirou na criação de Maycomb, cidade fictícia de seus dois romances.

Aos 23 anos, após se formar em Direito pela Universidade do Alabama, Lee se mudou para Nova York, onde reencontrou Truman Capote (1924-1984), amigo de infância que na época começava a formar seu nome na literatura.

Alguns anos mais tarde, após trabalhar como agente de passagens em uma companhia aérea, Harper Lee teve o apoio de um casal de amigos e se dedicou a escrever o manuscrito do que seria o seu primeiro livro, porém seu editor sugeriu uma nova história que se passasse antes dos eventos narrados por ela em um primeiro momento.

Na mesma época, Harper Lee ajudou Capote na pesquisa que daria origem a um dos mais conhecidos trabalhos do escritor. Só então publicou “O Sol é para todos”, que se tornaria um importante clássico, a ponto de ser escolhido como o romance do século em uma eleição realizada em 2000.

“O Sol é para todos” é narrado por Scout, a filha do advogado Atticus Finch, que defende um negro acusado injustamente de estuprar uma jovem branca. Além do Prêmio Pulitzer, o livro foi adaptado aos cinemas em um filme que conquistou quatro estatuetas do Oscar. Com mais de 40 milhões de exemplares vendidos no mundo, o livro inspirou ativistas na luta contra a segregação racial.

Harper Lee, no entanto, nunca esperou que o seu livro fizesse tanto sucesso e em pouco tempo resolveu se afastar da mídia, levando uma vida reclusa durante quatro décadas. Em uma de suas raras aparições, em 2007, recebeu do então presidente norte-americano, George W. Bush, a Medalha Presidencial da Liberdade por sua contribuição com a literatura.

Em 2015, a sua advogada encontrou os manuscritos inéditos do livro escrito na década de 50. Assim aconteceu a publicação de seu segundo romance. “Vá, Coloque um Vigia” (José Olympio) tem as mesmas personagens do livro anterior e causou polêmica. No novo livro, Atticus Finch é descrito como um homem racista que apoia a segregação racial, bem diferente da descrição da personagem no romance anterior. Outra polêmica é sobre o consentimento de Lee com a publicação da obra, pois, em idade avançada, ela sofria de senilidade. Contudo as autoridades concluíram que a escritora estava lúcida ao autorizar a publicação da obra.

Harper Lee foi interpretada no cinema por Catherine Keener e Sandra Bullock nos filmes “Capote” e “Infamous”, respectivamente. Ela vivia em uma casa de repouso desde 2007, quando sofreu um AVC.

Um Comentário

  1. Oi
    Realmente duas grandes perdas para a literatura, infelizmente ainda não tive chance de ler livros deles, mas quero muito ler O Sol é para todos e o Nome da rosa conheço a história por conta do film.e

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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