Perdido em Marte, Andy Weir, tradução de Marcello Lino, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2015, 336 páginas.
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Uma forte tempestade de areia encerra a missão Ares 3 muito antes do previsto. Com a certeza de que Mark Watney morreu, os outros tripulantes deixam Marte, mas na verdade ele está apenas ferido e provavelmente se tornará a primeira pessoa a morrer no planeta vermelho. Isso porque além de estar sozinho e sem qualquer comunicação com a Terra, seus mantimentos vão terminar muitos anos antes da chegada de resgate.

No entanto, em nenhum momento Watney pensa em desistir. Usando de suas habilidades de engenheiro e botânico, ele está disposto a fazer o que for preciso para continuar vivo e não medirá esforços para tentar contato com a Nasa e, quem sabe assim, conseguir voltar para casa.
“Se o oxigenador quebrar, vou sufocar. Se o reaproveitador de água quebrar, vou morrer de sede. Se o Hab se romper, vou explodir. Se nada disso acontecer, vou ficar sem alimento e acabar morrendo de fome.
Então, é isso mesmo. Estou ferrado” (pág. 14).
Por que demorei tanto para ler este livro? Esta foi a minha primeira reação ao concluir a leitura de Perdido em Marte e perceber, de uma vez por todas, que acabei enrolando para me aventurar em uma ficção científica de qualidade ímpar e que só poderia ter sido escrita por um nerd como Andy Weir.

Contratado como programador aos quinze anos e amante das histórias das viagens espaciais, Weir construiu em seu primeiro livro um enredo impecável, com forte embasamento científica que torna crível até aquilo que parece distante da realidade, como as viagens ao planeta vermelho. Mas este é apenas um pequeno detalhe se levar em consideração o que o livro realmente apresenta ao longo da busca de Mark por sua sobrevivência.

São necessárias pouquíssimas páginas para que as primeiras surpresas apareçam, mostrando junto as diversas reviravoltas capazes de tornar a leitura dinâmica e ao mesmo tempo envolvente. E aqui que o enredo elogiado anteriormente se mostra de fato impecável, afinal, o autor mal não dá tempo para assimilar uma informação e logo apresenta outra tão inesperada quanto a anterior. O resultado é que passei o tempo todo desconfiando do que estava dando muito certo e, mais do que isso, surpreso ao perceber que tudo estava perfeitamente interligado, sem deixar espaço para falhas na estrutura narrativa.

Se o clima de suspense causado pelas surpresas convence, o mesmo posso dizer do lado científico, em especial pela forma como o autor descreve as mais diversas situações — do conserto de equipamentos ao trabalho com alguns elementos químicos. Tudo é muito detalhado, revelando a segurança do autor ao falar sobre cada situação sem que tudo parecesse apenas fruto de sua imaginação.

Contudo, é necessária uma ressalva. A história inteira depende de como o protagonista vai reagir aos problemas, enquanto, na Terra, a NASA precisa encontrar formas de salvá-lo. Até aí não existe qualquer problema, muito pelo contrário (vide próximo parágrafo), contudo nada seria suficientemente crível se o autor não abusasse dos elementos técnicos/científicos. É bem verdade que isso pode confundir um leigo, porém garanto que tal confusão é passageira, pois aos poucos é possível compreender tudo.

E por falar em NASA, ela é uma das responsáveis pelos já citados dinamismo e envolvimento. O motivo é simples: até dado momento, tudo se resume aos diários de bordo de Mark, porém, quando a agência espacial descobre que ele está vivo, a narrativa passa a se dividir em diversos personagens e a se focar em diferentes conflitos, diretamente ligados ao principal. O foco deixa de ser apenas a sobrevivência e passa a ser também o resgate e a comoção que o caso causa mundialmente. Resultado? O que é bom se torna ainda melhor.

No entanto engana-se quem pensa que apenas esses são elogios suficientes, pois Perdido em Marte ainda é protagonizado por uma personagem sem igual, que não desiste nem mesmo quando tudo pede que o faça. Talvez pela situação vivida por Mark Watney, fica muito fácil se solidarizar e torcer por seu sucesso em todos os objetivos, porém Andy Weir foi além ao construir um protagonista espirituoso e de humor afiado, que conquista por sua personalidade marcante. É como se o desenrolar da leitura causasse o início de uma relação de amizade entre leitor-personagem.

Com tantos fatores positivos, fica fácil considerar Perdido em Marte um excelente livro e recomendá-lo a todos os amantes da ficção científica, em especial aqueles que apreciam também uma boa pitada de adrenalina. Ainda que seja um livro muito técnico, as cenas memoráveis — em especial as cenas finais — e a ficção primorosa por trás dele impede que qualquer mero detalhe tire o mérito de uma obra que, ao meu ver, deve ser incluída no grupo das melhores do gênero.
“DIÁRIO DE BORDO: SOL 80.
Segundo os meus cálculos, estou a 100 quilômetros da Pathfinder. Tecnicamente, trata-se da “Estação Memorial Carl Sagan”. Mas, com todo o respeito em relação a Carl, posso chamá-la como eu quiser. Sou o Rei de Marte” (pág. 94).

7 Comentários

  1. Olá Ricardo,

    Li e resenhei esse livro no blog, gostei demais da obra e também devorei as páginas, o personagem é incrível e a trama muito bem desenvolvida.....ótima resenha....abraço.


    devoradordeletras.blogspot.com.br

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  2. Oi Rick,

    que elogios bárbaros!
    confesso que fiquei bastante curiosa com o livro por conta do filme, mas desisti da leitura com os passar das resenhas que li (não que tenham sido negativas, pelo contrário), pois me fizeram perceber que não é o tipo de livro que eu gostaria de ler e isso prejudicaria muito meu andamento de leitura (a gente passa séculos lendo um livro que não gosta) e no final mesmo podendo me surpreender eu ainda corria o risco de não gostar e fazer uma crítica bastante negativa... então... Não pretendo ler.

    xoxo
    Mila F.
    @camila_marcia
    www.delivroemlivro.com.br

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  3. Sou fã de ficção científica e adoro quando as tramas são bem detalhadas, então isso me chama atenção nesse livro. Gosto quando a trama de convence pela verossimilhança. Além disso, o clima de suspense é um bom adicional.
    Quero ler a obra!
    Ótima resenha.

    Desbrava(dores) de livros - Participe do top comentarista de fevereiro. Serão dois vencedores!

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  4. Olá Ricardo!
    Sabia que o filme tinha este livro. Não e nem li ainda, mas a sua resenha me deixou com vontade de ler.
    É tão bom ler algo embasado na ciência e com um enredo tão rico e diferente.
    Beijos!

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  5. Pensei que a história ia ser enrolada demais, mas agora deu mais vontade de ler!! Parabéns pela resenha!!

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  6. Oiie, Biazotto!

    Essa resenha só conseguiu me dar uma vontade enorme de ler esse livro e me deixar curiosa apesar desse não ser meu estilo favorito.
    Ficou ótima a resenha, impecável. Parabéns!

    Beijos.

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  7. WOW, depois dessa resenha mega positiva, fiquei curiosa pra assistir ao filme e pra ler ao livro *----*

    www.literaturaliteral.wix.com/litblog

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