A garota sem passado, Michael Kardos, tradução de Marcelo Mendes, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2016, 304 páginas.
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1991. Em um domingo qualquer, Ramsey Miller deu uma festa em sua casa para todos os vizinhos. Ao final da festa ele assassinou a esposa e a filha de três anos. Pelo menos é o que pensa todo mundo da pacata Silver Bay.

2006. Ao longo dos quinze anos seguintes, a filha de Ramsey morou com os tios, sob o nome falso de Melanie Denison. Como o seu pai jamais foi capturado pela polícia, seus tios criaram rígidas regras de segurança para evitar que Ramsey fosse atrás da garota. No entanto, ao engravidar de um jovem professor de uma escola local, Melanie decide que seu filho não terá uma vida clandestina como a sua, por isso resolve voltar para a cidade onde tudo aconteceu, reunir pistas e encontrar o seu pai. Antes que ele a encontre.
“Melanie saiu caminhando depressa à frente de Phillip, o homem cujos medos, antes tão engraçadinhos, começavam a ganhar outro peso. Talvez tivesse gostado dele por causa das enormes diferenças que o separavam de Wayne e Kendra. Mas se os tios a estavam sufocando, um namorado medroso não era muito melhor. A covardia dele poderia colocá-la em risco” (pág. 61).
A garota sem passado é um livro diferente e essa é a primeira coisa que deve ser dita. Mas o que o torna diferente não é uma possível originalidade, tampouco o estilo narrativo de Michael Kardos. A grande diferença, suficiente para tornar essa uma leitura marcante, é o fato de existirem dois livros em uma única história.

Por mais estranho que possa parecer, digo isso porque ao mesmo tempo que se apresenta como um suspense inteligente, como são os trabalhos dos melhores escritores do atual cenário literário, este é também um drama sobre pessoas e famílias. Ao abordar os sentimentos das protagonistas, Kardos revela a profundidade do homem como um ser suscetível a falhas e com loucuras e medos capazes de moldar suas atitudes, muitas vezes ignorando o que teoricamente seria o correto. Ainda que não passem de personagens ficcionais, as principais personagens são retrato do mundo real.

Essa característica já deixa claro que A garota sem passado não é um suspense repleto de tensão. E nem precisaria ser para se destacar, pois o autor soube como casar passado e presente sem deixar qualquer ponta solta e, mais importante do que isso, envolver a cada novo capítulo. Como os capítulos intercalam o ponto de vista e o tempo, ou seja, não seguem uma ordem cronológica, as revelações surpreendem e surgem como peças de um enorme quebra-cabeça. Um quebra-cabeça montado com precisão e maestria.

Contudo o mais brilhante nesse jogo em busca das verdades é a já citada profundidade das personagens, em especial Melanie e Ramsey. No fundo não são apenas os possíveis mistérios em suas vidas que fazem parte do enredo, mas como as personagens lidam com os problemas de maneiras distintas: uma de forma radical, outra com atitudes infantis e descuidos que seriam evitados se tudo fosse meticulosamente pensado — mas como disse, todos estão suscetíveis a erros e isso que torna o enredo tão real.

E não é apenas isso. Além da veracidade das personagens e de suas atitudes, o que mais chama a atenção é como tudo é trabalhado com cuidado, a ponto de ser possível se identificar e torcer por heróis e vilões. É como se aprendêssemos com eles a medida que eles também aprendem com eles próprios.

Esse detalhe tem influência no único ponto a ser ressaltado: o desfecho. Se no início cada detalhe é explorado a fundo, em dado momento o autor acelera o ritmo, a exemplo de um legítimo thriller, como se estivesse apressado em colocar um ponto final em sua história. E confesso que provavelmente isso passaria despercebido caso tivesse concordado com todas as escolhas de Michael Kardos.

Sem criar qualquer semelhança, o que seria um erro e até uma injustiça, a minha sensação ao ler A garota sem passado era como se estivesse lendo Harlan Coben. Kardos e Coben constroem suas narrativas com perfeição; reviram o passado com destreza; e criam personagens marcantes e inesquecíveis. São autores como poucos e os reverencio por narrarem grandes histórias.
“Sua vida naqueles últimos sete anos tinha sido boa demais para ser verdade: mulher, filha, casa com duas vagas na garagem, emprego, banda… Mas agora, sozinho no caminhão, sem nada para distrair sua atenção, ele podia ver esses mesmos sete anos como eles realmente haviam sido: uma grande farsa. Essa era a única verdade. Ele deveria ter sabido” (pág. 163).

4 Comentários

  1. Olá Ricardo!
    Não conhecia o livro e gostei de saber mais sobre ele nesta resenha.
    Não sou muito fã de suspenses, mas esse me chamou atenção por ter um algo a mais além.
    Beijos!

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  2. Fiquei interessado, vai para a lista de leituras.

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  3. Oi
    estava curiosa para conferir uma resenha desse livro. Gostei da sua resenha e fiquei curiosa para conferir a história, legal que ele acaba por ter duas histórias e a protagonista parece ser bem interessante.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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  4. Eu to curioso demais para ler esse livro. Acho que esse ano ficarei falido de tanto livro que eu quero ler. Parece que a cada resenha que eu leio de um livro diferente faz com que eu me apaixone por ele sem mesmo ler ou até mesmo se a resenha fala mal. "A garota sem passado" parece ser exatamente o tipo de livro que eu estou procurando. Adorei o seu blog, já está nos meus favoritos.

    Meu Blog: www.umcontainer.com

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