Brasyl, Ian McDonald, tradução de Fábio Fernandes, 1ª edição, Rio de Janeiro-RJ:
Saída de Emergência Brasil, 2015, 416 páginas.
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Três personagens ligadas misteriosamente através do tempo, do espaço e da realidade. Três histórias repletas de mistérios e situações inesperadas.

2006. Marcelina é uma produtora de TV do Rio de Janeiro que busca fama através de suas criações, muitas vezes questionáveis. Seu possível próximo programa tem o objetivo de encontrar e julgar o goleiro do futebol brasileiro mais desprezado de todos os tempos. Mas insistir nessa ideia pode envolvê-la em uma antiga conspiração e colocar sua vida em risco.

2032. Edson é um empresário que quer deixar as favelas de São Paulo, mas um encontro acaba envolvendo-o no perigoso mundo da computação quântica. Com isso ele precisa encontrar uma forma de se salvar, mas vivendo em um Brasil em que tudo é facilmente rastreado, a sua missão não será nada fácil.

1732. Padre Luis Quinn é um missionário jesuíta que explora a Floresta Amazônica a procura de um padre renegado que tem a intenção de construir um império. Mas o que ele encontra ali vai contra tudo o que acreditava e pode colocar um ponto final na realidade.
“Não havia mágica nos morros nem na cidade: a filosofia lúgubre de Heitor não permitia magia no mundo. Nem fantasma nem saci-pererê nem sósias nem universos paralelos. Apenas um antigo segredo de família que apareceu para cobrar sua dívida. Mas você não conhece Marcelina Hoffman. Ela é a capoeirista; ela derruba garotos espertos com jeito e malícia; ela é malandra” (pág. 247).
Quando a extinta editora Saída de Emergência Brasil anunciou o lançamento de Brasyl, um dos mais reverenciados trabalhos do escritor escocês Ian McDonald, o que despertou o meu interesse foi o fato de essa ser uma ficção científica ambientada no nosso país. Não bastasse esse detalhe, o livro ter sido escrito por um gringo também me alegrou. Por essas e outras, na época ignorei o fato de ter lido pouquíssimas obras do gênero e me limitei a lembrar dos importantes prêmios internacionais que o livro concorreu nos anos posteriores ao seu lançamento original.

Passados tantos meses, iniciei a leitura sem saber o que esperar de um enredo tão bem elogiado pela crítica, e talvez aí esteja um dos motivos que me fizeram não apreciar por completo a obra. Como costuma acontecer com frequência, a imprensa superestimou uma história que tinha potencial, mas que acabou pecando em seu desenvolvimento. Ou pelo menos em parte de seu desenvolvimento.

Antes de me incomodar com certas situações, o que chamou a atenção foi como um gringo soube captar o espírito brasileiro de forma tão magistral. Como se falasse sobre o seu próprio povo, o autor deu vida aos mais típicos brasileiros, com as características marcantes e que muitas vezes nos diferem da população de outros países. E não foi só isso: em três épocas distintas, McDonald diversificou na construção das personagens enquanto destacava a essência histórica, política e social do Brasil.

Se por um lado ele ambientou o seu enredo com maestria, usando referências que nem mesmo autores locais costumam usar, por outro pecou ao necessitar de um longo tempo para demonstrar o valor de seu enredo. Ao meu ver isso ocorreu pelos tempos narrativos serem intercalados ao longo das quase quatrocentas páginas, impossibilitando assim uma sequência de situações que levassem a algum lugar.

A escolha dessa característica só faz sentido quando a série de informações jogadas ao vento também começa a fazer sentido, ou seja, quando se torna possível compreender como as histórias estão interligadas. Em contrapartida, outra característica que contribuiu para demora é a narrativa de McDonald. Ainda que escolha muito bem as palavras, o autor tem uma escrita densa e cheia de descrições desnecessárias, para não dizer exageradas, o que quebra o ritmo da leitura por não estar focado no que realmente interessava para o conjunto.

Falar sobre tal conjunto é uma missão um tanto complicada, mas basta dizer que Brasyl é uma ficção cientifica muito bem pensada. Entre outras questões, a obra explora elementos da computação quântica e a existência de universos paralelos, sem deixar de lado questões fundamentais em uma sociedade do passado, do presente ou mesmo do futuro. Não por menos afirmei anteriormente que o autor soube explorar a essência brasileira, mostrando, por exemplo, a influência que o futebol exerce em nosso cotidiano.

Aqui vale um parêntese: que sacada genial de Ian McDonald ao falar sobre o fatídico Maracanaço. Sendo um eterno apaixonado pelo futebol, sempre me interessei pelo jogo que calou mais de duzentas mil pessoas que assistiam a partida que definiria o título da Copa do Mundo de 1950. Mas aquele jogo contra o Uruguai não apenas deixou feridas abertas em muitos torcedores brasileiros, como também mudou a vida de muitos dos jogadores em campo, por isso o enredo teve um brilho a mais tamanha a genialidade dessa ideia e como ela casou perfeitamente com todas as demais.

No fim, todas as histórias estão completamente conectadas, porém apenas os enredos por trás de Marcelina e Edson me deixaram curioso do começo ao fim, enquanto que lendo as passagens do padre Quinn me via facilmente desinteressado. Talvez essa seja a maior prova de que mesmo possuindo um enredo atraente e bem pensado, Brasyl pecou parcialmente em seu desenvolvimento, ainda que não deixe de ser uma ficção científica imprevisível e com uma boa dose de ação e mistérios surpreendentes.
“Marcelina abriu desajeitada os olhos. Ela estava em pé no centro de uma nuvem de eus; um labirinto de espelhos de Marcelina Hoffman à frente, atrás, à esquerda, à direita, acima, abaixo, mas todas conectadas a ela e uma a outra. Uma somente, uma só vida em toda sua completude. (...) Ali. Rápida como um morcego, afastando-se de sua visão enquanto ela a tocava, atravessando de um mundo para outro mundo para outro mundo. Ela mesma. Sua inimiga. A anti-Marcelina, a caçadora, a policial” (pág. 337).

3 Comentários

  1. Oie, Biazotto!

    Gosto muito das suas resenhas, e essa me deixou curiosa para ler pelos pontos negativos que você relata, quero tomar minhas próprias conclusões sobre tal.

    Parabéns pelo escrito!

    Beijos.

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  2. Olá Rick,

    Gostei da resenha e não sei exatamente como me posicionar aqui, pois não conheço a escrita do autor de Brasyl, mas devo confessar que nunca tive vontade de ler ao livro e que está é a primeira resenha que leio do mesmo.
    Embora tenha gostado da proposta do livro, continuo sem interesse em ler, aliás tem um ponto de sua resenha que me desmotivou: o fato do escritor fazer descrições desnecessárias. Isso torna a narrativa tão arrastada.

    xoxo
    Mila F.
    @camila_marcia
    www.delivroemlivro.com.br

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  3. Oi Ricardo, sabe que eu ainda não tinha lido nenhuma resenha deste livro? Fiquei bem interessada pelos mesmos motivos que chamaram a sua atenção, uma ficção científica que se passa no Brasil e de autor estrangeiro. Sempre atiça o interesse! A história parecer ser bem boa, vou tentar conferir.

    Beeijos, Paola
    uma-leitora.blogspot.com.br

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