Morada das Lembranças, Daniella Bauer, 1ª edição, São Paulo-SP: Biruta, 2014, 200 páginas.
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Após a morte do pai, uma menina se depara com uma mudança drástica em sua vida e na forma como vê tudo ao seu redor. No auge da Revolução Russa de 1917, o clima de tensão assombra muitas famílias judias e essa garota, acompanhada do que restou de sua família, se vê obrigada a iniciar uma jornada rumo ao desconhecido. Viajando para o outro lado do mundo, ela precisa assumir uma nova identidade, se adequar a uma nova cultura e enfrentar todas as dificuldades sem se abalar. E sempre seguindo em frente…
“Eu teria de me acostumar com esse traço de tristeza que me acompanharia. Mesmo quando experimentei momentos de alegria em minha vida, as marcas de tristeza em meu ânimo e o medo, companheiro próximo tal qual sombra, nunca me abandonavam” (pág. 61).
Sabe aquela deliciosa sensação de visitar a casa da vó em uma tarde chuvosa e passar horas ouvindo as histórias do passado que ela tem para contar? Não é preciso muito para que essa experiência estreite os laços entre avó-netos, mas, dependendo dos relatos, a emoção pode tomar conta do ouvinte e isso inclusive moldar a sua personalidade.

Morada das Lembranças consegue transmitir exatamente essa emoção e talvez seja o motivo que torna essa a leitura tão cativante. Embora seja um livro de poucos diálogos, assim como costumam ser as histórias narradas por nossos avôs, o romance de estreia de Daniella Bauer é repleto de devaneios e ao mesmo tempo carrega a sensibilidade necessária ao se falar de temas delicados sob a visão de uma garota, que ainda desconhece as mazelas da sociedade.

A importância dessa sensibilidade se deve muito aos temas que são abordados ao longo de toda a narrativa. Em nenhum momento Bauer fala abertamente sobre, por exemplo, o antissemitismo, porém isso está tão presente na obra que acaba influenciando diretamente o desenvolvimento da narradora-personagem como pessoa. Sendo um livro destinado ao público infanto-juvenil, não haveria outra forma de a autora ser tão objetiva e realista, uma preocupação que deve ser reconhecida.

Contudo, enquanto esse estilo narrativo possibilita um aprofundamento dos dramas vividos pelas personagens, ele também se mostra falho por um único motivo: a falta de acontecimentos e consequentemente de ação. Muitas vezes os capítulos se estendem por longas páginas, mas tudo parece continuar sempre no mesmo lugar, com uma clara falta de dinamismo e reflexões repetitivas por parte da protagonista.

E essa protagonista é talvez o que faz maior diferença para a totalidade. Mesmo quebrando o ritmo da leitura pelo excesso de devaneios, ela carrega em si uma coragem invejável, que faz dela uma narradora diferenciada, chegando ao ponto de funcionar como uma verdadeira inspiração, tamanha a grandeza e a força de sua personalidade. Dá para dizer, portanto, que ela é a verdadeira cereja do bolo.

A partir da força citada, ela explora com delicadeza o sofrimento das minorias, especialmente os judeus e as polacas, que é como ficaram conhecidas as mulheres traficadas para servirem ao mundo da prostituição. Além disso, ela também explora as formas de se lidar com a morte e própria influência da religião na vida das pessoas, como se a escolha de uma religião, seja ela qual for, transformasse o caráter de alguém.

Ganhando vida através de um trabalho gráfico de encher os olhos, Morada das Lembranças é um breve e tocante relato do que foi a imigração de europeus para o Brasil nos anos posteriores ao fim da Primeira Guerra Mundial, especialmente a vinda dos judeus, e como essa imigração contribuiu para a criação da colcha de retalhos que é a sociedade brasileira. Não poderia existir algo mais real do que isso.
“A solidão, quando não é escolhida, tolhe nossos movimentos, deixa-nos sem ar, tranca as palavras que poderiam correr em frases soltas em um velho baú escondido no fundo de nossa alma. E às vezes ele transborda” (pág. 139).

4 Comentários

  1. Cara, que resenha. Fantástico. É um assunto interessante demais. Quero ler.

    Até mais, beijos!

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  2. Um pouco da sua resenha me lembrou de "Toda luz que não podemos ver". Fico sem saber se a história me interessa mesmo ou não. Histórias com enredo baseado em momentos históricos sempre me deixam meio com um pé atrás, mas geralmente surpreendem.

    Beijos,
    Postando Trechos

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  3. Olá Ricardo!
    Adorei essa resenha. E a história me interessou bastante, eu sou uma amante de história e adoro ler coisas que se baseiam em reais acontecimentos.
    Beijos!

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  4. Olá Ricardo,

    Vir aqui no seu blog é sempre bom pois ficamos conhecendo ótimos livros, a sinopse me chamou atenção, mas se dependesse da capa nem olharia, mas enfim, sua resenha me deixou com uma imensa vontade de ler, vou anotar a dica.....abraço.

    http://devoradordeletras.blogspot.com.br/

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