A Revolta da Cachaça, Antonio Callado, 1ª edição, Rio de Janeiro: José Olympio, 2016, 124 páginas.
Skoob: Clique Aqui.

Talvez mais do que nunca vivemos um momento de intensas e importantes lutas pelos direitos de todas as pessoas, independente de crenças, raça ou orientação sexual. Consequentemente esse fato faz de A Revolta da Cachaça uma obra atemporal, em especial ao pensarmos que a peça teatral, escrita em homenagem ao ator Grande Otelo, trata a descriminação de atores negros no meio artístico — e qualquer semelhança com as polêmicas das últimas edições do Oscar é mera coincidência.

O debate racial em A Revolta da Cachaça faz parte de algo muito maior, afinal o enredo compõe o chamado Teatro Negro de Antonio Callado, composto por outros três trabalhos. Mas, tão importante quanto a temática, o enredo se destaca pela forma como o dramaturgo soube usar de seu trabalho intelectual em defesa dos direitos daqueles que defendia. Reconhecido principalmente por sua elegância, Callado, que era um intelectual de esquerda, fez algo que muitos artistas ideológicos não conseguem nos dias de hoje: liderou com sua obra uma luta eficiente em busca de seus interesses.

Nesse caso em especial, a história se foca no dramaturgo Vito e em sua esposa Dadinha, ambos brancos. Os dois são surpreendidos por um inusitado presente: um tonel de cachaça, que chega sem qualquer remetente. Tão inesperada quanto o presente é a visita de Ambrósio, um ator negro que foi o responsável por enviar o tonel a fim de a cachaça acompanhar os amigos em uma intensa discussão sobre seus passados e as questões que incomodam o ator, como o descaso com os negros e a falta de interesse de seu amigo em concluir uma peça.

Aparentemente esse é um enredo simples, porém que tem muito a dizer. Callado reservou surpresas agradáveis ao longo da história e assim agradou também ao retratar, com veracidade e o cuidado necessário, a vida de um ator negro no teatro. A questão é que na época (e muito provavelmente ainda hoje), os atores negros são desprezados e muitas vezes seus papéis são de pouca importância, quando não são apresentados em estereótipos e personagens descartáveis, por isso a importância do debate.

No fundo tudo se baseia na busca de Ambrósio por um papel de protagonismo em uma peça teatral. Para isso a ideia é que Vito escreva um roteiro inspirado na revolta que dá título ao livro, ocorrida no século XVII e que resultou na decapitação de duas pessoas que se recusaram a acatar a ordem de não produzir cachaça. A revolta em si é um episódio classificado como o primeiro momento democrático da história brasileira, mas para a obra é o ingrediente responsável por apimentar as relações.

A qualidade de A Revolta da Cachaça se deve principalmente a essa relação, inclusive sexual, entre Vito, Dadinha e Ambrósio, que carregam sentimentos de amor e amizade que aos poucos são desmitificados. O interior de cada personagem revela as diferentes maneiras de se lidar com problemas, mas não deixa de ser também uma crítica aos (des)interesses humanos e à sociedade de um modo geral, em sua antiga mania de rotular tudo e todos sem medir as consequências.

Antonio Callado tem como aliada a ironia que propositalmente é responsável por uma reviravolta que fecha com chave de ouro um texto simplista, quase desinteressante em um primeiro momento, mas que ao mesmo tempo é de um valor cultural e social imensurável. Sem contar o valor literário, com um texto de leitura agradável, personagens marcantes e reflexões para compreensão do passado e mais do que nunca do presente.
“AMBRÓSIO — (...) Estou de saco cheio de fazer papel de marginal, o cara que fica na praia espiando o barco, no meio-fio olhando automóvel, sempre na beira, na margem. Vim aqui cobrar a fama que você me deve. Vim pra morar, pra morrer. Mas no meio do rio ou da rua. Chega de margem” (pág. 102).

2 Comentários

  1. Ricardo, adorei a resenha. Consegui me interessar muito por ela e também pelo livro. Parabéns pelo belo escrito. :3

    ResponderExcluir
  2. Olá Ricardo!
    Adorei a resenha. Achei super importante e atual a proposta do livro. Não só com negros que ocorreu estereótipos em papéis, quantas vezes um personagem gay só carrega um veia cômica em uma obra? É tratá-los como inferiores e até superficiais.
    Beijos!

    ResponderExcluir