Lisbela e o Prisioneiro, Osman Lins, 3ª edição, São Paulo-SP: Planeta, 2015, 120 páginas.
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Leléu é um conquistador de primeira que sempre se apaixonou por várias mulheres ao mesmo tempo. A primeira vez que ele se apaixona por alguém para sempre é quando conhece Lisbela, a jovem filha do tenente Guedes, delegado da cadeia pública de Vitória de Santo Antão-PE. O único problema é que Lisbela está de casamento marcado com Dr. Noêmio, que não gosta da ideia de ser traído e está disposto a contratar um matador para assassinar Leléu e resolver todos os seus problemas.
“FREDERICO: Você me parece que é corajoso e sabido. É bom dever favor a um homem de coragem, porque quem tem coragem não gosta de viver pedindo ajuda. Mas dever favor a um sabido é o mesmo que dormir de porta aberta” (pág. 30).
Apesar de sua adaptação para o cinema ter feito muito sucesso no início dos anos 2000, até hoje desconhecia a história de Lisbela e o Prisioneiro, peça escrita por Osman Lins na década de 60. A verdade é que nunca tive interesse em assistir ao filme de Guel Arraes, porém na primeira oportunidade a minha vontade de conhecer e estudar textos teatrais falou mais alto e isso me levou a ler um dos principais trabalhos de Lins, escritor e dramaturgo pernambucano falecido em 1978.

Estaria mentindo se dissesse que o enredo se tornou um dos meus favoritos, mas não posso negar a qualidade cultural e literária por trás da história de amor de Lisbela e Leléu — e vou evitar falar sobre a história justamente por já ser tão conhecido pelo filme supracitado. O primeiro ponto devido ao contexto social abordado pelo dramaturgo, que apesar de ter deixado muitas coisas subentendidas, retratou o interior nordestino com maestria. Já o segundo ponto porque a qualidade do texto é capaz de ser o maior aliado dos responsáveis por possíveis montagens do roteiro.

A força do texto fica evidente conforme as personagens revelam suas principais características e consequentemente contribuem para o tom cômico necessário em uma comédia. No entanto seria um exagero dizer que o humor faz parte de uma constante em Lisbela e o Prisioneiro. Nesse quesito, o ponto forte está na caracterização de tais personagens, ao mesmo tempo estereotipadas e verdadeiras, que podem nem sempre tirar gargalhadas, mas conseguem divertir a partir de um diálogo consistente do início ao fim.

Como toda a história se passa em apenas três atos, sem outras divisões de cenas, a consistência do diálogo é essencial para a existência de uma leitura dinâmica, ainda que geralmente roteiros sejam de fato de um dinamismo incomparável. Mas o mesmo vale em relação a própria montagem do texto ao teatro, em especial porque tudo se passa em um único cenário e isso, além de tornar tudo muito rápido, nem mesmo dá tempo para respirar.

Ironicamente o que poderia ser um grande achado, se tornou um dos pontos negativos da obra. Mesmo no meu caso, que larguei o livro apenas para preparar uma xícara de café, a leitura passou tão rápido que a sensação ao final foi que ficou faltando alguma coisa. Aparentemente algumas personagens foram simplesmente jogadas em cena, senão para ocupar espaço, para de forma brilhante contribuir com o contexto geral. E isso contribuiu mesmo foi com a falta de empatia, o que em um livro quer dizer muita coisa.

Não é preciso um longo tempo para se encantar com a história de amor de Lisbela e o Prisioneiro. É preciso ainda menos tempo para perceber o rico valor da escrita de Osman Lins, que particularmente me ensinou a necessidade de no teatro explorar um texto simples e com palavras minuciosamente escolhidas. Sua intenção poderia ser exatamente essa, usar o básico para falar sobre suas personagens e como elas encontraram a solução para seus problemas. Mas claro que faltou algo. Talvez simpatia, talvez uma pegada diferente, ou quem sabe até uma releitura com olhos mais atentos de minha parte.
“LELÉU: O senhor sabe o que eu queria ter, sargento? A força dos touros. O aprumo de um cavalo puro-sangue. Ser bom e doce para as mulherinhas, como as chuvas de caju que caem de repente, no calor mais duro de novembro. E livre, Sargento Heliodoro. Como o vento num pasto muito grande” (pág. 36).

4 Comentários

  1. Ri, que resenha bem escrita, meus parabéns! Talvez eu nunca chegue a ler este livro, uma por não gostar de ler textos teatrais e outra por essa história não ter me chamado a atenção. Mas enfim, curti sua resenha!

    Beijos.

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  2. Eu AMO AMO AMO esse livro <3 É maravilhoso <3 <3 <3

    www.literaturaliteral.wix.com/litblog

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  3. Olá Ricardo!
    Eu conheço justamente por causa do filme e eu nem fazia ideia de que tinha um livro, mas adoro assistir ao filme. É bom para um tarde qualquer e sem nada para ver.
    Quem sabe um dia não me aventura nas páginas também?
    Beijos!

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  4. Oi Ricardo, sempre quis ler esse livro por causa do filme lindo do Guel Arraes! Adorei a sua crítica.

    Beeijos, Paola
    uma-leitora.blogspot.com.br

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