Em seu livro autobiográfico, "Quando o Amor Transpõe o Oceano", a autora Winifred Ethel Netto escreve na pág. 70:
"Se houvesse roupas para passar, eu o fazia"
A meu ver, a mensagem é clara: se houvesse necessidade de passar roupas, ela passava. E se passava, é porque sabia.

Na página 71, temos a seguinte afirmação:
"Eu também não sabia nada sobre passar roupas, mas fazia o melhor possível"
A meu ver, a mensagem também é clara: ela não sabia passar roupas.

Mas ela não sabia antes?
Pobre Snape... esta fala só dá certo nos livros...

A linearidade é a capacidade de colocar tudo em ordem dos fatos: ações A tornam possível (ou não) ações B, que facilitam (ou não) ações C e assim sucessivamente.

Um bom exemplo de linearidade pode ser encontrado na lenda dos 12 trabalhos de Hércules: ao derrotar o Leão de Neméia, o semideus arrancou a pele do animal e a vestiu, ficando invulnerável. Com ela, ficou imune às mordidas venenosas da Hidra de Lerna. Ao matá-la, passou suas flechas no veneno e as usou para matar um bando de aves carnívoras perto de um lago. Agora imagine se a ordem dos trabalhos tivesse sido inversa: Hércules enfrentaria o Leão de Neméia com algumas partes do corpo faltando além de estar envenenado...

Não confundam linearidade com começar a contar uma história desde o seu começo exato. Você pode escolher um momento exato de quando a história começa e, se tiver que contar o passado de alguém, terá que cuidar de todas as arestas para que elas não interfiram no presente. Suponhamos, por exemplo, que você está escrevendo a narrativa de uma mulher que se torna policial aos 23 anos e é parabenizada pelo pai e o noivo na formatura e vai narrar não só a vida dela no combate ao crime como a vida dela até a formatura. Em algum momento da vida dela antes da formatura, você terá que matar a mãe dela e fazê-la conhecer um homem por quem vá se apaixonar, namorar e noivar. Se nada disso acontecer, se prepare para ter uma dor de cabeça e reescrever quase um livro inteiro...

No seriado "Spartacus - Blood and Sand", estes dois são inimigos. Na prequel, "Champions of Arena", nem parece que iam se odiar tanto...

Manter a linearidade tem muito a ver com os backgrounds dos personagens, além a verossimilhança (não sabe do que estou falando? Leia AQUI e AQUI). O primeiro item revela aquilo que o personagem pode fazer. O segundo diz se o acerto pode ser executado em qualquer situação.

007 de Pierce Brosnan: treinado para matar? Sim. Bebe litros de vodca? Sim. Erra algum tiro? Não (?!).

Para construir uma trama linear, é preciso fazer um bom planejamento de cenas (não sabe? Leia AQUI). Também chamada de "escaleta" no ramo da escrita, tal elaboração passo a passo evita que uma cena seja prejudicada por falta de algo na cena anterior.

Exemplo de planejamento mal sucedido:
Cena 1 - Juliano termina o serviço mais cedo na agência de publicidade e seu chefe o dispensa mais cedo;
Cena 2 - Juliano chega em casa mais cedo e encontra a esposa com um amante;
Cena 3 - Juliano revela sua presença e atira no casal.
Em qual parte é descrito que Juliano tinha uma arma de fogo?

Uma nova versão fica:
Cena 1 - Juliano termina o serviço mais cedo na agência de publicidade e seu chefe o dispensa mais cedo;
Cena 2 - Juliano chega em casa mais cedo e encontra a esposa com um amante;
Cena 3 - Juliano revela sua presença, saca a arma que carregava consigo no cotidiano e mata o casal.
A maioria dos escritores não reclamaria de tal escaleta. Já um bom escritor se perguntaria por que um publicitário andaria armado.

Logo, se não quiser perder o conteúdo da narrativa, uma troca simples seria:
Cena 1 - Juliano é um policial que recebe a notificação que está sob investigação da corregedoria e será temporariamente afastado, voltando para casa mais cedo;
Cena 2 - Juliano chega em casa mais cedo e encontra a esposa com um amante;
Cena 3 - Juliano revela sua presença, saca a arma que carregava e mata o casal.
Ou também:
Cena 1 - Juliano termina o serviço mais cedo na agência de publicidade e seu chefe o dispensa mais cedo;
Cena 2 - Juliano chega em casa mais cedo e encontra a esposa com um amante;
Cena 3 - Juliano vai à cozinha, pega a maior faca que encontra, vai ao quarto e mata o casal.
Viram? Em ambas as soluções, a trama ainda é a mesma: um homem chega mais cedo em casa, descobre que está sendo traído e mata o casal.

Com uma boa escaleta de cenas, você não só tem a linearidade almejada como também evita um dos piores recursos literários, o Deus Ex Machina (não sabe o que é? Há artigos AQUI e AQUI).

Qualquer dúvida, postem nos comentários.

Obrigado a todos(as) e continuem estudando!

Sobre o Autor
Davi Paiva nasceu em São Paulo, Capital, em 1987. É graduado em Letras pela Universidade Cruzeiro do Sul. Participou de várias antologias da Andross, Terracota, CBJE, Navras, Literata, All Print, Aped e Darda Editora, sendo nesta última o organizador da antologia Poderes - Contos sobre Pessoas com Dons Extraordinários. Publica suas obras em diversos sites, entre eles o recantodasletras.com.br
Contato: davi_paiv@hotmail.com.

4 Comentários

  1. Olá Davi!
    Adoro os seus artigos. Eles me dão os nomes de coisas que eu sempre fiz. Chega a ser engraçado perceber isso.
    Eu tomo muito cuidado com linearidade, sempre que preciso de um detalhe, eu volto e confirmo a informação, para não acabar fazendo merda.
    Quanto a escaleta, ela também sai natural. haha
    Beijos!

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    1. Oi, Anelise. Beleza?
      Realmente, para quem tem prática em leitura, há muita coisa que já sabemos. Só não sabemos que elas têm nomes.
      Que bom que toma cuidado com a linearidade. Ela exige planejamento e bom senso em determinar que fato B depende totalmente do que ocorreu em fato A. Na dúvida, sempre recomendo que exponha seu trabalho a bons leitores beta.
      Abraços.

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  2. Valeu por compartilhar, Davi!

    É sempre bom afinar nossas habilidades :)

    Abraço,
    Lucas Palhão

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    1. Pode crer, Lucas. Aprendo ao mesmo tempo em que ensino.

      Continue estudando!

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