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Baseado: “A Megera Domada”, de William Shakespeare
Direção: -
Duração: -
Gênero: Comédia
Apresentação: 08 de maio de 2016
Adaptado a um universo country, a história é desenvolvida entre trancos e barrancos. Bianca, a filha mais nova de Batista, somente pode-se casar com seu amor, Lucêncio, se sua irmã mais velha, a intragável Catarina, casar-se primeiro.
Eis que surge Petruchio, com seu fiel servo Grúmio, que se dispõe a não só conquistar o coração de Catarina, mas também, amansar a fera.
Há quase um ano, escrevendo para essa mesma coluna, comentei sobre a responsabilidade de adaptar um texto de William Shakespeare, o maior dramaturgo de todos os tempos. Na ocasião afirmei que a mínima referência ao dramaturgo inglês exigia apenas o melhor, menos do que isso não seria agradável e tampouco aceitável, por isso a necessidade de capacidade técnica para se ter a ousadia de remontar um texto shakespeariano. Algo que se encontra em raros casos, como em um grupo que há quarenta anos estuda, vive e respira William Shakespeare.

Formado em 1975, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, o Cena IV – Shakespeare Cia é um grupo que, entre outras coisas, forma atores através de um método de estudo próprio e desenvolvido ao longo das últimas décadas. A Megera Domada é apenas um exemplo do belo trabalho realizado pelo grupo, tanto na formação de atores, como na criação de espetáculos, visto que neste caso é possível afirmar que a essência, apesar de todas as adaptações, permaneceu exatamente a mesma.

Isso é o mais importante!
Foto: Reprodução/Metáfora Comunicação e Arte
E explico a importância da essência: o tão conhecido enredo, explorado inúmeras vezes na televisão e no cinema, como na inesquecível novela “O Cravo e a Rosa” (2000), foi adaptado a um universo country, algo relativamente diferente e que pessoalmente penso que poderia ser um sucesso, se bem executado, ou um terrível fracasso — não haveria meio termo. Claro que mantendo o tom cômico também não haveria como errar, mas volto dizer: a responsabilidade de adaptar Shakespeare é imensa.

Apesar de citar tanto o seu autor, seria um erro dizer que na minha visão o tom cômico se deu pelo texto encenado. Na verdade, como muitas vezes acontece no gênero, o humor foi explorado muito mais pela caracterização das personagens e em seus gestos, e não simplesmente pelo poder de um bom texto. A principal vantagem de seguir por esse caminho é a facilidade de atrair gregos e troianos.

O que não passa despercebido é o figurino e principalmente o cenário. Ambos são simples. Objetivos. De um capricho inquestionável. E no caso do cenário com um pequeno detalhe que faz toda diferença, para o bem e para o mal: não há troca de cenários. Visualmente isso é ótimo, deixa a cena limpa do começo ao fim, porém falta algo diferente pelo simples fato de algumas cenas se passarem em locais diferentes. Digo isso sem saber se outros cenários seriam realmente possíveis, mas com a certeza de que o único cenário casa com tudo o que é necessário.
Foto: Reprodução/Metáfora Comunicação e Arte
E aí vem o melhor do espetáculo: o seu elenco. Tudo aquilo que foi citado sobre a formação de atores se comprova em cena. É bem verdade que quase todos se mantêm em um mesmo nível, mas uma atriz em especial é irretocável, tamanho o brilhantismo de sua atuação e a grandeza no palco. E não poderia ser outra que não Marcella Marín. Dá gosto de vê-la atuando, a ponto de se encantar mesmo pela insuportável Catarina. Isso me dá uma certeza: ela está entre as melhores da região.

O problema de A Megera Domada está em algo quase que insignificante, mas que me levou a questionar se era realmente necessário. Por mais que aparentemente a ideia fosse causar uma aproximação entre elenco-plateia, e isso até tenha dado muito certo, a citação a um clube de futebol brasileiro, no caso o Corinthians, ao meu ver foi algo no mínimo inesperado. E juro que nem é pelo fato de torcer para o maior rival do time em questão. A cena até caiu no gosto de todos, mas definitivamente não me convenceu.

No fim o Cena IV – Shakespeare Cia faz exatamente o que se espera: uma adaptação inteligente, com qualidade técnica e artística, uma trilha sonora contagiante e um elenco que, embora tenha uma atriz acima de todos os demais, faz total diferença no todo. E é isso o que importa ao se lembrar dos 400 anos da morte do Bardo.

2 Comentários

  1. Olá, Rick. Amei o escrito. Parabéns.
    <3

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  2. Olá Ricardo!
    Concordo com o fato de que adaptar Shakespeare é sempre um desafio.
    No meu ensino médio, também fiz esta peça, mas foi só para a minha turma mesmo.
    Adorei a ideia do Cena IV de usar o Velho Oeste como cenário para esta adaptação.
    Beijos! :3

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