Toda poesia, Augusto dos Anjos, 5ª edição, Rio de Janeiro-RJ: José Olympio, 2016, 320 páginas.
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A leitura de uma obra poética é uma experiência rara em minha vida de leitor, e nem posso dizer que é por falta de interesse, mas de tantos poetas que poderiam ser escolhidos neste momento, Augusto dos Anjos não seria uma das primeiras opções. Na verdade, estaria bem longe disso, no entanto o lançamento de uma nova edição de Toda poesia de Augusto dos Anjos não poderia passar despercebido.

Já em sua 5ª edição, a obra possui poemas de “Eu” (1912), o único livro do autor publicado em vida, e também uma série de poemas não reunidos por ele em um único volume. Além disso, um estudo crítico escrito pelo poeta Ferreira Gullar serve como auxílio para o entendimento da obra, das escolas literárias das quais o autor participou e, querendo ou não, até o contexto histórico e social do início do século XX.

Um dos pontos que merecem ser ressaltados, conforme também aconteceu no estudo supracitado, é a forma concreta com que Augusto dos Anjos fala sobre os sentimentos e vai além ao relatar também acontecimentos do seu cotidiano. Suas palavras muitas vezes podem ser de difícil compreensão, porém carregam a profundidade de sua alma e o resultado são surpresas encontradas a cada novo verso, seja por sua qualidade literária ou pela qualidade humana.

Tudo isso revela detalhes do contexto literário, ou seja, o movimento em que a obra se encaixa, ainda que até hoje gere opiniões contrárias em relação a isso. Enquanto alguns classificam a obra como pré-modernista, outros destacam as características herdadas do simbolismo e do parnasianismo, em especial pelo provável resgate ao modelo poético clássico. A leitura da obra deixa claro que todas as possibilidades fazem total sentido.

E mesmo deixando os debates aos críticos, é inegável o fato de que o poeta paraibano quebrou paradigmas e contribuiu para uma revolução na obra poética dos brasileiros da época. Em compensação não se pode descartar o fato de ter sido necessário um longo tempo até que os críticos passassem a reconhecer o valor da curta, porém riquíssima trajetória de Augusto dos Anjos, marcada por, entre outras coisas, rimas ricas e inusitadas.

Destaque para a simplicidade dos poemas “Ricordanza dela mia gioventú” e “Noivado” ou a tristeza tocante e inesquecível de “Solitário” e dos três sonetos escritos por Augusto dos Anjos em homenagem ao seu pai. Ler os versos destes três sonetos e não sentir nada é o mesmo que não ter um coração para bombear sentimentos em seu peito, afinal estes possuem os versos mais sinceros e emocionantes de toda a obra.

O simples fato de essa ser uma antologia poética serve como prova de que é uma obra para ser deixada na cabeceira e lida com absoluta calma, talvez um ou outro poema por dia, caso contrário será difícil apreciar tudo o que a envolve — e isso seria de um grande prejuízo. Embora os sonetos sejam mais agradáveis que os poemas longos, todos os versos carregam algo profundo ao falar sobre a morte, a vida, as pessoas e as coisas abstratas do cotidiano.
“Da Saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida” (Saudade – pág. 280).

Um Comentário

  1. Rick, é tão bom ler uma resenha sobre uma antologia poética, dado que sou apaixonada por versos. Sua resenha me deu alegria e vontade de raptar o livro da sua estante. rs

    Parabéns pelo escrito.

    Beijos. :D

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