O Quarto Dia, Sarah Lotz, tradução de Alves Calado, 1ª edição, São Paulo-SP:
Arqueiro, 2016, 352 páginas.
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Janeiro de 2017. Uma viagem de réveillon que tinha tudo para ser perfeita se transforma em um verdadeiro pesadelo, digno de filme de terror. Durante cinco dias o navio O Belo Sonhador fica sem qualquer tipo de comunicação e uma possível pane mecânica é motivo suficiente para instaurar o caos entre passageiros e tripulantes, que passam dias de incertezas com mortes suspeitas e fenômenos sobrenaturais.
“Gritou e mordeu a língua quando um peso pousou em seu peito, tirando-lhe o ar dos pulmões. Tentou se soltar debatendo-se, mas os braços não queriam — ou não conseguiam — se mexer. Paralisado, não havia nada que pudesse fazer enquanto um hálito de gelo roçava em seu rosto e dedos frios subiam feito aranhas por sua coxa” (pág. 106).
A leitura de Os Três revelou o potencial de Sarah Lotz em criar enredos sinistros a partir de uma premissa simples. O maior defeito do livro em questão, particularmente relevado por ter conhecimento de uma provável continuação, foi o desfecho sem pé nem cabeça que criou muitas incertezas. Quase dois anos depois a esperada “continuação” chegou, com um grande problema: de continuação não tem absolutamente nada.

Além da lateral do livro colorida (dessa vez em azul e não preto) e o gênero, a única semelhança entre “Os Três” e O Quarto Dia é o universo em que se passa. Mas calma!, não falo de um universo paralelo ao nosso e sim que os eventos narrados anteriormente são vez ou outra citados no novo livro de Lotz. Até mesmo o estilo narrativo da obra se diferencia e muito da anterior, sendo esse um dos motivos que mais me agradaram.

Há dois anos a narrativa me impressionou por ser formada, em sua grande maioria, por entrevistas, mensagens, reportagens, etc. Dessa vez a autora conseguiu manter um excelente ritmo de leitura e o mistério, mais uma vez muito bem pensado, impede o desvio de atenção, porém agora com algo diferente. O estilo narrativo romanceado deixou claro que assim Lotz consegue ter um cuidado maior com o enredo, aumentando o envolvimento com a trama e o apego às personagens, algo impossível anteriormente.

Deixando as comparações de lado — mesmo porque O Quarto Dia consegue se destacar por conta própria —, se de um lado me apeguei às seis protagonistas, por outro fui levado a confusão pelo grande número de personagens secundários que ocasionalmente se tornam importantes para as diversas tramas que fazem parte da principal. E o grande destaque está sem dúvida na construção de cada pessoa que se destaca; seus passados, receios e sonhos foram bem desenvolvidos e se encaixam perfeitamente no contexto geral, algo importantíssimo para uma boa ideia não se perder em sua execução.

Mas nem tudo são flores. O problema começa com a sinopse oficial dando de bandeja algo que só acontece por volta da página 300, no entanto é mais ou menos na mesma parte que o livro, até então muito inteligente e bem desenvolvido, vai completamente por água abaixo. Ironicamente na mesma parte em que o estilo romanceado é deixado para trás, iniciando páginas de reportagens e relatos. As coisas macabras acontecem a todo instante (não assustadoras, que fique claro), gerando muitas perguntas que mais uma vez ficam sem respostas, porém, como se viajando em outra realidade ao escrever o desfecho, Sarah Lotz vai por um caminho totalmente sem sentido.

No meu caso em particular, ler O Quarto Dia fez eu me lembrar da antologia “King Edgar Hotel” (Andross, 2015), que tive o prazer de participar no último ano — afinal os dois livros narram histórias distintas que se completam quando se encontram. Isso tornou a leitura mais especial, mas, a não ser que exista um terceiro livro, dessa vez com mais respostas do que perguntas, e explicando a loucura que foi esse desfecho, essa será sempre lembrada como uma história que seu final destruiu o que tinha tudo para ser incrível.

Outra possibilidade para encontrar respostas seria passar o próximo réveillon em alto mar. Será?
“A mão que havia coberto a lente da câmera. Os tripulantes convencidos de que a mulher morta estava assombrando o navio. Os relatos de alguns funcionários indonésios e filipinos sobre a Dama de Branco flutuando nas profundezas do navio, provocando passageiros e tripulantes.
Havia uma explicação racional para tudo aquilo. Tinha que haver” (pág. 212).

2 Comentários

  1. Rick, amei a crítica. E fiquei curiosa. Poxa, fazer isso com as pessoas é maldade. Kk
    Parabéns pelo escrito e me empreste o livro. Beijo.

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  2. Olá Ricardo!
    Adorei a resenha e é meio chato quando a sinopse te dá um spoiler tremendo.
    Nunca tinha ouvido falar da autora e nem do livro. Só nãi sou tão fã do gênero para ler o livro.
    Beijos!

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