Superman versus Goku... Liga da Justiça versus Vingadores... Dumbledore versus Gandalf... Harry Potter versus Percy Jackson...

Quem não adora ou não conhece um bom crossover?

Para quem não conhece, crossover é quando dois seres de universos diferentes se encontram. A galera curte mais imaginá-los lutando. Por outro lado, há quem creia que alguns são tão bons e gentis que dificilmente eles lutariam.
Superman e Goku - Se eles são bons, por que lutariam?
No ramo literário, o crossover pode ocorrer de duas formas: ou quando um autor cria dois mundos, personagens, corporações, etc. e depois faz a união ou quando dois autores, cada um com a sua obra, resolvem fazer a parceria.

O caso mais curioso é de Rick Riordan, que criou a série "Percy Jackson e Os Olimpianos" onde conhecemos os semideuses gregos para depois, em "Crônicas dos Kane", nos apresentar seus magos avatares dos deuses. No fim, lançou um livro especial, "O Filho de Sobek", onde Percy Jackson encontra Carter Kane (mas quem leu as duas sagas, viu leves menções ao mundo de Percy nos livros dos Kane).

Devido à questão dos direitos autorais, nomes de peso na literatura consagrada ou até a literatura pop não fazem parcerias. Por outro lado, o mundo da fanfics aproveita que não tem interesse em ganhar dinheiro com o projeto e faz um James Bond encontrar um Jason Bourne, por exemplo.

Caso você queira fazer um crossover como o encontro de Lara Croft e Indiana Jones, recomendo os seguintes tópicos:

  • Estude muito bem os personagens. Um fã jamais vai querer ler uma história de um Coringa que se cansou de atormentar o Batman e vá para Nova York sequestrar a tia May sem a intenção de cortar as orelhas dela até deixá-las pontudas (credo!);
  • Procure explicar bem o encontro dos dois. Edmond Dantès viveu no século XIX enquanto Christian Grey é do século XXI. A não ser que o protagonista de "50 Tons de Cinza" consiga viajar no tempo (ou trazer O Conde de Monte Cristo para o período atual), o encontro não vai ficar interessante;
  • Pense em como eles vão interagir. O Chapolin é bom e atrapalhado. O Doctor Who é bom e inteligente. Dificilmente os dois teriam motivos para se enfrentar (era bem capaz do Colorado dizer algo que faria o Senhor do Tempo rir e dois se entenderiam).
  • Faça isso visando apenas publicação sem ganhos, como em blogs. Se você quiser escrever uma narrativa do encontro do Batman com Sherlock Holmes, não vai pagar nada a nenhum inglês pelo fato do detetive de Conan Doyle ser domínio público. Mas a DC não vende os direitos de imagem do Morcegão a um preço acessível. E nem adianta falar "mas é só eu não dar o nome". Se o cara tem cabelos pretos, olhos verdes, óculos, uma cicatriz de raio na testa, uma varinha e fala com as cobras, dizer que o nome dele é Mohamed Al Sahim não vai livrá-lo de um processo...
Caso o autor seja uma pessoa mais acessível, fale com ele e negociem um denominador comum. Duvido que um André Vianco da vida quer ver seus vampiros se apaixonando por adolescentes na escola, por exemplo. E se ele vetar, guarde seus cartazes de "abaixo a censura", pois ninguém é obrigado a nada.

Agora, a pegunta que não quer calar: o que é o Efeito Rashomon?

O nome vem do filme Rashomon, de 1950, onde o mesmo fato é narrado de diversos pontos de vista. Daí, também virou o nome de um recurso literário pouco conhecido, mas que vale a pena ser divulgado.

Atentem-se: todo Efeito Rashomon pode ser um crossover. Mas nem todo crossover é um Efeito Rashomon. Em um encontro do Mandrake com o Inspetor Buginganga, podemos mostrar como o mago vê as coisas e teremos um crossover. Se voltarmos a narrativa toda e ver que o Inspetor o ajudava no último instante, será um Efeito Rashomon.

Dois exemplos bem populares de Efeito Rashomon: o filme "O Homem que Copiava" mostra a jornada do protagonista para conquistar uma garota. No final do filme, vimos que ela sempre deu brechas a ele para ambos começarem a namorar. E o que dizer de Harry Potter revendo todo o seu passado do ponto de vista do "odiado" professor Snape? Os fatos não mudaram. Só mudamos a ótica de quem o narrou.
Rashomon, filme japonês de 1950.
Não se acanhem se não souberem o que é um Efeito Rashomon. Eu o fiz certa vez sem saber o que era: uma amiga publicou um conto comigo em janeiro de 2013 chamado "Por Que Escutei Meu Coração?" onde uma garota arruma um namoro on-line e depois é ignorada pelo sujeito até terminar com ele. Pedi autorização e contei a história do ponto de vista do rapaz gerando o conto "Ela Nunca Vai Saber". Não mudei nada. Mas consegui dar muito mais densidade à trama por mostrar uma dissertação acerca dos namoros on-line.

Fazer um Efeito Rashomon tem quase as mesmas exigências de um crossover: se fizer sozinho, alinhe todos os fatos. Se fizer com alguém, combinem local, época, personagens em comum e fatos. Planejem como será a história (resumo, tabela cena a cena, mostrem o texto completo e editem alguns pontos, etc.).

Tanto o crossover quanto o Efeito Rashomon são trabalhosos. Mas os resultados são gratificantes.

Se tiverem dúvidas, postem nos comentários.

Obrigado a todos(as) e continuem escrevendo!

Sobre o Autor
Davi Paiva nasceu em São Paulo, Capital, em 1987. É graduado em Letras pela Universidade Cruzeiro do Sul. Participou de várias antologias da Andross, Terracota, CBJE, Navras, Literata, All Print, Aped e Darda Editora, sendo nesta última o organizador da antologia Poderes - Contos sobre Pessoas com Dons Extraordinários. Publica suas obras em diversos sites, entre eles o recantodasletras.com.br
Contato: davi_paiv@hotmail.com.

4 Comentários

  1. Muito bom o artigo, Davi, parabens!

    Confesso que nao conhecia essa definicao do efeito rashomon, mesmo ja tendo utilizado. Foi deveras esclarecedor.

    Abracao

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    1. Oi, Wagner. Beleza?
      Como eu disse, é um termo que todos sabem, mas não sabem que tem um nome.
      Obrigado.

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  2. Olá Davi!
    Adorei a leitura desse artigo e também não conhecia o Efeito Rashomon. Acredito que nunca o usei.
    Quanto aos crossovers: já fiz sozinha, fiz com uma amiga. Sempre muito divertido!
    Beijos!

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    1. Oi, Ane.
      Que bom que tenha gostado.
      Já que já fez um, por que não faz o outro?
      É divertido!
      Abraços.

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